Desgoverno

29 Out 2015 / 03:00 H.

Quando o país mais precisava de estabilidade política e governativa, esperávamos que as forças político-partidárias e os seus intervenientes de maior protagonismo assumissem uma postura de grande responsabilidade e respeito pelos resultados de uma eleição democrática que legitima a formação de Governo. E todos percebemos a vontade dos Portugueses: Não quiseram um Governo de maioria absoluta. Escolheram um Governo sem maioria parlamentar, obrigado a alcançar consensos e plataformas de entendimento e, essencialmente, de equilíbrio governativo.


Nada faria prever qualquer outro cenário, até porque a vontade soberana do eleitorado era inequívoca, sendo absolutamente consensual a derrota do Partido Socialista, de tal forma que se comentava inclusivamente a possibilidade de demissão do seu líder, e porque era também evidente que as posições ideológicas e programáticas do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda os afastavam do Partido Socialista - basta ver a posição do Partido Comunista relativamente ao Euro e ao Tratado Orçamental.


Porém, surpreendentemente, aqueles partidos políticos,  contrariando a sua própria natureza e a essência dos princípios e valores com que sempre se apresentaram perante o eleitorado, tentam convencer o país que teriam condições para governar e lançam supostas plataformas de entendimento que são, como se sabe, absolutamente fictícias e que assentam única e exclusivamente na vontade comum de chegar ao poder.


A verdade é que, se era já evidente, no período eleitoral, a desilusão, a desmotivação e a desconfiança dos Portugueses em relação ao poder político, agora a situação agrava-se substancialmente pois todos questionam o próprio sistema político, num quadro de enorme incerteza e instabilidade governativa que abala a credibilidade do país na europa.


Ora, é evidente que o Partido Socialista não tem condições para governar com o Partido Comunista Português e com o Bloco de Esquerda. É evidente que estamos apenas perante um irresponsável postura de bloqueio com consequências desastrosas. É evidente que, como já alguém referiu, estamos perante uma verdadeira “golpada parlamentar” que denuncia não só a forma como fazem política como também os seus verdadeiros intuitos políticos. É uma postura que revela uma tremenda falta de sentido de responsabilidade institucional e uma profunda ausência de ética de Estado. E não me parece que quem assume esta postura de poder a todo o custo esteja em condições de formar Governo. Como podem aqueles que, após uma derrota eleitoral, nos fazem mergulhar numa profunda crise política, convencer o país que têm condições para governar e para ultrapassar uma tremenda crise económico financeira que se arrasta e que tem obrigado a severas políticas de austeridade?


Irresponsavelmente estamos a ser empurrados para uma indesejável situação de gestão governativa e, sendo pouco provável a formação de um governo de iniciativa presidencial, teremos certamente eleições em menos de um ano.

Brício Martins de Araújo

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