Arraial a Norte, o exemplo do Seixal

15 Set 2015 / 02:00 H.

Lembro-me de em criança ir a correr, como todos os da minha idade, em direcção à banda filarmónica, no caso, a do Arco de S.Jorge, logo que esta «desembarcava» do camião que a transportava (caixa aberta!) para continuar o percurso a pé até o adro da Igreja onde tocava o hino de abertura em homenagem ao Santíssimo, que inspirava a essência religiosa do arraial de Verão do Seixal, como tantos outros, a cada penúltimo domingo de Agosto de cada ano.

Era um contentamento geral para uma população que ouvia pouca música, pois nessa época eram também poucos os que dispunham de um rádio ou de um transistor limitando-se a escutar os cânticos da igreja aos domingos ou o som que brotava dos altifalantes em dia de arraial, colocados estrategicamente na freguesia para todos os poderem ouvir, ou a música da banda que percorria a freguesia comandada pelo respectivo «festeiro» (que financiava o evento) secundado pelos habitantes locais interessados.

O modelo era simples á época, o povo da freguesia, a par da devoção ao Santíssimo, divertia-se e partilhava essa alegria com os seus pares, os familiares «embarcados» de visita à terra (em geral provenientes da Venezuela ou da Africa do Sul) e alguns forasteiros das freguesias vizinhas da Ribeira da Janela, Porto Moniz e, principalmente, de S.Vicente.

A animação constava assim das perfomances da banda filarmónica que interagia com o público, formando «rodas» e «filas indianas» ao som das músicas que este conhecia, do som dos ditos altifalantes e da conversa animada á volta de uma «barraqinha» de comes e bebes decorada com ramos de louros que conferiam uma mancha verde agradável á vista. Acresce que era comum também surgirem grupos espontâneos com acordeão, tambor e «ferrinhos» que animavam as ditas barracas tocando e cantando ao «desafio» (despique) provocando pequenos ajuntamentos á sua volta onde eu, claro, também participava activamente. Mais tarde, surgia o «conjunto de ritmos modernos» que agradava ao público mais jovem e levava quem quisesse a bailar ou a apreciar, mantendo-se o carácter familiar e popular da festa.

Ainda é assim?

Infelizmente não, já que a banda subsiste mas acantonada num coreto e a participação popular resume-se aos pares dançantes ao ritmo do conjunto musical contratado, em geral de fraca qualidade mas «ajudando» à festa, ficando a maior parte da população local numa atitude expectante e a observar a invasão de forasteiros que, surpreendentemente, tomaram de assalto esta e a festa vizinha de S. Vicente, suscitando pelo seu consumo um espectáculo desolador de barracas de madeira (diria antes «boxes») com publicidade ao consumo de bebidas alcoólicas e cada uma com o seu DJ had-hoc que coloca a sua própria música em alto e bom som para tentar neutralizar a do concorrente ao lado, gerando uma caucofonia intediante a quem passa ou se digne assistir ao espectáculo. Qual a diferença para o ambiente próprio de uma rua de S.Paulo em Lisboa já que cerca de 50 «balcões de venda» de bebidas e bugigangas concentravam-se praticamente em 200 metros de via pública com uma barreira humana tal que era quase impossível atravessá-la a pé!

Ou seja, o arraial tradicional descaracterizou-se perdendo a sua identidade e alheando a população local desta espécie de «rave» que lhe é estranha e leva a que se encontre no arraial mais gente de fora do que população residente.

Que ganham os locais? A meu ver pouco, pois o comércio temporário vem e vai, ou seja, é feito em grande parte por agentes exteriores e não há nenhuma iniciativa para promover e vender produtos locais, agrícolas ou não, apenas a receita camarária resultante do aluguer dos espaços públicos cedidos aos interessados.

Não faria sentido disciplinar a ornamentação e animação desta «festa» obrigando os concessionários do comércio temporário ao respeito de certas regras de decoração e de som, porventura com uma solução comum que se identifique com o carácter popular deste tipo evento?

Será nostalgia minha ou incapacidade para compreender esta evolução que as jovens gerações protagonizam, mas que diz pouco aos seus progenitores, antes fá-los lamentar a perda de valores associada?

Nuno Jardim Fernandes