A canga da troika!

A Troika não veio para combater a corrupção nem para combater os interesses instalados

31 Ago 2012 / 02:00 H.

Estão em Portugal os verdadeiros governantes do País - os funcionários da Troika!
São eles que vão decidir sobre o Orçamento de Estado para 2013 e sobre as novas medidas de austeridade que lá serão incluídas.
São eles que vão decidir sobre a alternativa à declaração de inconstitucionalidade feita pelo Tribunal Constitucional dos cortes dos subsídios de férias e de Natal para os funcionários públicos e para todos os reformados, sejam eles do sector público ou do privado, gradualmente acima dos 600 euros ou na totalidade acima dos 1100 euros.

São eles que também vão decidir sobre o caminho a seguir diante da calamidade económica, social e financeira, em que se transformou a aplicação do memorando por eles imposto e assinado pelo PS/PSD/CDS para emprestarem 78 mil milhões de euros.
Se Portugal tivesse Governo eles não deviam ter direito a pronunciarem-se sobre nenhuma destas duas questões!
Sobre o corte dos subsídios deviam ficar calados por duas razões.
A primeira, porque essa medida não consta do memorando assinado e foi única e exclusivamente da responsabilidade do Governo PSD/CDS, com a abstenção do PS.

A segunda, é porque o FMI não tem àgua onde se lave - é que os Planos de Reforma dos funcionários do FMI pagos com as contribuições dos Estados-membros prevêem o pagamento de pensões vitalícias a partir de 50 anos de idade com um mínimo de 3 anos de serviço. Como refere Dean Baker, Director do Centro de Pesquisa Económica e Política em Washington, técnicos do FMI podem reformar-se aos 51 anos com uma reforma da ordem de 74 mil euros anuais.
Para assegurar estas mordomias, para além da contribuição que Portugal paga para o FMI, pela "ajuda" de 78 mil milhões de euros somos obrigados a pagar 34.400 milhões de euros de juros, a somar aos 655 milhões de euros de comissões, sem juros.
Que moral têm estes funcionários para decidirem sobre mais cortes para os trabalhadores e reformados que trabalham a produzir e não a parasitar e descontaram para as suas reformas?

Sobre o caminho a seguir para sair do buraco em que a austeridade mergulhou o Povo e o País, esses senhores também deviam ficar calados porque tudo isto é consequência da política por eles imposta e aceite pelo PSD/CDS e pelo PS apesar das suas abstenções mais ou menos "violentas" mas que tudo deixam passar.
A receita fiscal entre Janeiro e Julho deste ano caíu 3,5%. As receitas de todos os impostos directos e indirectos, à excepção do IRS, desceram. Trata-se duma enorme derrapagem orçamental.
O Governo fez aprovar com os votos do PSD e CDS e a abstenção "violenta" do PS o maior aumento da carga fiscal de que há memória em Portugal. Em lugar de recolher mais receita, recolheu menos, porque as Empresas não aguentaram e faliram, o desemprego aumentou e as receitas para a Segurança Social diminuíram a par dum aumento de despesas, o consumo diminuíu e o IVA baixou, etc., etc..

Em consequência temos um País onde o único indicador positivo é o aumento das exportações e onde se tenta apresentar também como positivo a diminuição das importações como se tal facto não se devesse à enorme descida do poder de compra dos portugueses.
Ficamos com a aplicação deste plano de austeridade mais pobres e mais fracos económicamente.
Os responsáveis têm nome e não têm autoridade para nos imporem mais da mesma receita que penaliza sempre os que trabalham por conta de outrem e os pequenos e médios empresários.
Ao contrário do que muitos pensavam quando a Troika cá chegou ela não veio para combater a corrupção nem para combater os interesses instalados.
De combate à corrupção nem cheiro. De combate aos interesses intalados estamos no reino do faz de conta. Veja-se as Parcerias Público-Privadas - há dois meses Passos Coelho prometia reduzir em 4,5 mil milhões de euros só nas PPPs rodoviárias; agora a muito custo fala-se em apenas mil milhões mas sem saber-se como e para quando.

Mas para negócios de amigos à custa do interesse público há sempre disponibilidade - vendeu-se o BPN por 40 milhões de euros a capital angolano depois de gastarem milhares de milhões de euros dos nossos impostos em limpar os seus prejuízos. Agora querem encerrar a RTP2 e entregar em concessão a RTP1 a privados mantendo compulsivamente os cidadãos a pagarem uma taxa na factura da luz procurando fazer-nos crer que um privado, talvez estrangeiro, assegure serviço público.
Já é tempo de vermos que com a cantiga da crise e da dívida só querem colocar os trabalhadores e reformados a receberem vencimentos de miséria e sem direitos sociais para que os donos de Portugal responsáveis pela crise continuem na sua vida de luxo e riqueza.

Paulo Martins