Trevas medievais

Ninguém tem de se demitir pela queda de uma palmeira! estamos ou não na Madeira nova?

28 Ago 2010 / 02:00 H.

Inoportuna e desconfortável perplexidade ensombra os últimos raios de Agosto, por conta da ideia peregrina de que alguma cabeça deve rolar depois da queda da palmeira no Porto Santo. Obviamente, não tem de haver qualquer demissão. Estamos na Madeira nova! Se é possível entupir ribeiras e desprezar serras, favorecendo a ocorrência de tragédias, sem que os identificados delinquentes sofram a menor moléstia, por que diabo exigir procedimento diverso no caso de uma árvore?

Devem os responsáveis políticos demitir-se toda a vez que cai uma palmeira? Não, em circunstância nenhuma, se isso acontecer na Madeira nova. Sim, se a queda da palmeira provocar mortos e feridos graves, se os responsáveis políticos tiverem sido avisados para o perigo iminente, como foi o caso... mas se o palco do sucedido for uma terra civilizada e democrática. Sim, o presidente da Câmara do Porto Santo teria o dever de se afastar do cargo - e afastado permanecer enquanto decorresse o inquérito - se esta Região integrasse o universo das terras de poder civilizado e democrático. Deste prisma, e só deste, acertam 100% aqueles que têm exigido a demissão de Roberto Silva.

Mourejamos num exercício inútil, puramente académico. Porque uma conduta ética de tal jaez não se ajusta ao estilo Madeira nova - onde campeiam a delação, a caça às bruxas, a discriminação e a revindicta, mas só para os não alinhados. É fantasia pensar em demissões. Desde logo porque o chefe das Angústias se solidarizou com Roberto Silva. E desagravo que o presidencialato desove tem força de absolvição - aliás sem direito a recurso. Depois, sua excelência condenou o "aproveitamento político da tragédia". Então, levantar dúvidas incómodas sobre as causas do acidente passou a ser campanha pérfida contra o destino turístico Porto Santo. A mesma táctica do silenciamento usada pelo divertido 'chefe de praça' nos temporais de Fevereiro e há pouco nos incêndios. É que se fosse para punir culpados...

O irresponsável descaramento só vinga nas ilhotas graças ao estado emocional decrépito de um povo cansado de trinta e tantos anos de esperanças perdidas. Capitulação ante o obscurantismo feudal que o dono das Angústias foi rebuscar aos seus íntimos medievais para impor numa desgraçada terra que já padecera meio século de ditadura. O suserano déspota doa os feudos aos vassalos nobres que, no melhor entendimento com o clero e na velhaca exploração dos servos da gleba, agradecem ao dito suserano com vassalagem rastejante. Assim viceja o regime do delírio, aplaudido pelos caudatários do pato-bravismo à Madeira nova. A realidade virtual desenhada pelo dono da verdade.

Se tivesse a humildade de pegar numa notícia de alerta ilustrada com fotografia da palmeira estranhamente inclinada e mandasse investigar o fenómeno, o presidente do Porto Santo não precisaria de andar a contradizer-se agora. Por razões menos evidentes se moveram insistentes influências para cortar uma pobre tipuana que incomodava a casa de algum pavão residente na Pedro José de Ornelas.

O obscurantismo oficial conserva as consciências nas trevas da ignorância. Magister dixit, não se fala mais no assunto e quem falar desrespeita as vítimas. Respeitar as vítimas é como faz sua excelência: com mortos por enterrar e feridos graves no hospital, farra para baixo nas tascas do Areal. Entrevistas às 'Caras' deste inculto País, de um chefe refastelado na 'sua' casa de Verão do Porto Santo. Enquanto Roma arde, o imperador escreve crónicas da patuscada diária para o jornal que todos pagamos. Manda contar as presenças nos comícios dos outros partidos. Inaugura aterros e desaterros. Atribui o que chama de 'aproveitamento político porco' ao jornal que não se deixa intimidar pela sua bazófia atrabiliária ou pelos dizeres chocarreiros de uns quantos  truões sem graça, assoldadados valentões de estrebaria que ululam no raio de audição do chefe, à cata das derradeiras migalhas do regime.

'Este pelo menos enfrenta o Continente' - ouvia-se nos alvores da 'ditadura nova'. Claro. A táctica do suserano feudal de prometer protecção dos ataques bárbaros aos parolos que lhe pagavam a existência faustosa. Tratava-se de manter vivo o fantasma do colonialismo abatido no 25 de Abril de 1974. 

Os madeirenses, saturados, deixam-se tratar como o chefe entende, contudo conhecem a realidade. Sabem que, apesar dos complexos de superioridade das capitais, não parte de Lisboa o enxovalho que tem desonrado a Madeira nestes trinta e tantos anos. Não mora em Belém ou em S. Bento o fanfarrão que costuma  chamar "corja de malucos" aos madeirenses que por livre opção  escolheram a oposição regional. Não é 'alfacinha de gema' o causador de uma dívida regional que já empenhou drasticamente o  povo insular do futuro. Não é em Lisboa que se produzem as ordens para sanear a televisão da Madeira e fechar jornais regionais. Não é lá que se confecciona a eliminação das elites madeirenses. Não é regedor de Paço de Arcos o tipo que caluniou madeirenses com o epíteto de 'vadios'. Não saem do Terreiro do Paço as atitudes carnavalescas que mancham a imagem da Madeira. Não é lisboeta quem gasta o dinheiro da Madeira em viagens faustosas por essa Europa, com carro, chaufer e demais mordomias que os parvos pagam, enquanto os desalojados das enxurradas vivem em arrecadações e palheiros, enquanto a pobreza e a exclusão alastram, enquanto o desemprego e a toxicodependência disparam, enquanto o 'espectáculo' dos sem-abrigo mostra diariamente a triste realidade da Madeira nova. Não é cubano o intriguista que lança madeirenses contra madeirenses. Não é em Lisboa que chamam imbecis aos madeirenses agitando cenários delirantes, inimigos e conluios inexistentes.

Anestesiado pelo obscurantismo, o povo vê o indestituível chefe das Angústias injuriar moinhos de vento acantonados em Lisboa, dispostos a destruir as ilhas. Quando a desgraça aperta a sério é que são elas: a incompetência do líder não vai além de pedir ao povo para rezar e ir à bruxa.

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