O Funchal em Pessoa

A cidade conserva coisas bonitas. Estão é soterradas na selvajaria da Madeira nova

21 Ago 2010 / 02:00 H.

Quando Virgílio Pereira, na renhida campanha eleitoral de 1993 contra o socialista André Escórcio, usou o lema "Funchal de alto a baixo", presumivelmente queria exprimir um propósito de harmonização do crescimento urbano. Mas os tubarões do cimentismo tomaram a palavra à letra e escaqueiraram a capital. De cima a baixo e dos Socorridos à Cancela. Resultado, 17 anos depois: um sufoco de construção na terra e no mar, praias-fantasma, trânsito enervante, desordem urbanística que dói.

Tudo agravado agora pelas enxurradas e pelos incêndios. Hoje, Dia da Cidade, é de mau gosto falar em desgraças. No entubamento de pequenos ribeiros às centenas, canalização de ribeiras e estrangulamento ao nível da foz. Ou perguntar onde andam os propagandeados postos de vigilância nas serras do norte funchalense, barreira anti-derrocadas que o lume levou.

Como o fogo, a construção arde o verde. Os políticos mandantes e sicários afins explicam a profusão de mamarrachos na cidade com uma discutível explosão demográfica . O Funchal subiu de 113 mil habitantes em 1981 para 115 mil em 1991. Mas depois caiu, a tender para os 100 mil à entrada dos anos 2000. A cimentização não se destina, pois, a resolver  os graves problemas da habitação. É construir e facturar. Se o monstro de betão afectar o PDM, suspende-se o PDM. E a Câmara impotente para travar os barões! Planos só servem para atrapalhar o 'desenvolvimento'. Foi preciso fazer o aterro da Avenida na hora de aflição? Pois já agora improvisa-se qualquer coisa ali, que importa se a diligência não resulta de um projecto interessante ou de uma ideia inovadora. É, sim, a machadada final no postal que mais divulgou a Madeira, a panorâmica obtida do Pináculo com uma linha de costa só ao alcance do pincel da mãe-Natureza.

O nosso alcaide da praça, Miguel Albuquerque, faz constar demarcação ante a boçalidade e o trauliteirismo arquitectónico do governo e seus validos. Mas a capital continua dominada pelo regime alapado que carcome a Madeira como caruncho faminto.

Questão de interpretação do que deve ser o desenvolvimento. Para uns é deitar lajes e fundar pilares. Para outros, planificar obra em coordenação com a saúde do espírito. Fernando Pessoa dizia que a vitalidade de uma nação não é a sua força militar ou o êxito comercial, mas a sua exuberância de alma. Por isso, à grandeza brutal de Roma sobrepunha a supergrandeza da Grécia. Hoje, temos ruínas romanas e ideias gregas, dizia ele. Bom, Fernando Pessoa era só um poeta desassossegado a declamar ao mar salgado. Que se saiba, nunca pegou num cocho de cimento. Muito menos tinha a experiência de um empreiteiro da Madeira Nova. Donde se infere que o vate, a viver na Madeira de hoje, não teria conta off-shore.

A mística dos altares de S. João, Festas da Sé, Funchal a Cantar, Funchal Jazz e Feira do Livro pode acalentar um pouco a exuberância de alma. Mas não o quotidiano real. A Zona Velha e o comércio tradicional a morrer. A degradação e a desertificação da baixa. Estado caótico dos bairros sociais. Amontoados de 'arranha-céus'. Os tormentos do linho nas zonas altas e as novas periferias à Latino-América. Política de estacionamento devorista. Acessibilidades e transportes intrigantes, pisos surreais. Insegurança. As saudades do calhau da Ponta Gorda, do velho Lido, da Barreirinha do Sr. Faria. O sequestro da cultura. "Problemas que não se resolvem com hortas urbanas", no dizer de um destacado político da oposição. Sistema complexo. Depois do Funchal Centrum, persiste o Toco. Param obras de hotéis, continua de pé o cavername das Minas Gerais. E ninguém se assume. Na ditadura que precedeu esta, o edil Fernando Couto actuou: o prédio 'Coelhos Irmãos' (actual Café Funchal) subiu dois pisos a mais. Pois vieram abaixo. E não só aí.

Sem receitas que se vejam, com funcionários a exigir redimensionamento e uma dívida de fugir - 80 milhões de euros -, a câmara jaz refém da teia, ou faz parte dela. O governo acusa-a de 'negociatas' e, sempre com o vice  do GR à frente, faz 'marcação cerrada' ao protagonismo nas enxurradas e nos incêndios. A sucessão em lume brando.

Este 21 de Agosto inclui uma presença enigmática, a do 'renegado' Passos Coelho. Não só por se tratar de um chefe partidário numa sessão solene, mas porque o convite sugere descoordenação com as Angústias. O próprio líder do PSD nacional, que se livrou da peixeirada na Herdade, maldirá a sorte de ter de 'gramar' a estopada desta manhã, nos Paços. Por mera cortesia, informamos o chellenger a primeiro-ministro que aquela câmara já atribuiu uma medalha de honra a Mário Soares e depois lha tirou, por pirraça das Angústias. E há dois anos, por esta altura, ouviu-se a ameaça de barcelonizar a Madeira, com um novo partido.

No seu discurso, o nosso alcaide voltar-se-á contra o Estado 'arrogante e controlador', como de costume. Para o GR, nada. E o chefão, para homenagear o poder autárquico, falará da obra do seu governo. Ou de revisão. Ou do ministro das Finanças. O resto é poesia. Deviam mostrar soluções para a cidade. Deviam entender como parte do Funchal os sem-abrigo sós e alcoolizados à porta da igreja do Carmo, nas escadas do Anadia, na Travessa da Malta e à volta do Mercado. Precisam de acção social. Esses e os toxicodependentes, que também são funchalenses. Olhem de frente o postal que a Madeira nova borrou, às pazadas de argamassa, na fúria das obras. Podem ironizar, que é poesia pessoana. Mas há outro Fernando Pessoa, um arquitecto de verdade, que em 1969 veio aos 'Colóquios de Urbanismo do Funchal' deixar um aviso às autoridades contra os "especuladores de terrenos" e demais tubarões: "Que a cidade cresça, que se fomente a construção e o turismo, que se urbanize de novo, se abram ruas, se lancem esgotos e cabos eléctricos, mas sem destruir a paisagem do Funchal. Que se faça uma cidade nova preservando a cidade antiga."
Talvez este Fernando Pessoa, arquitecto paisagista, seja um perigoso comunista que então quis sabotar o desenvolvimento da Madeira velha.

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