Raios ultralaranja

A sufocante 'estação da parva' torna-se mais longa e agrava-se de ano para ano

10 Jul 2010 / 02:00 H.

Em época de índice ultravioleta 11, temperaturas abafadiças, humidade pegajosa e funestos efeitos da crise galopante, mais se nota que a atmosfera atlântica se deteriora de ano para ano.

Os deputados do PSD fervilham por aí a mostrar serviço e a levantar o moral do povo, declarando-se "satisfeitos" com o que observam por essas freguesias. Mas tem de haver um equívoco sócio-geográfico qualquer. A leitura dos deputados itinerantes desafina da realidade que despedaça o corpo e a alma da mortificada plebe. Por um lado, os homens de Jaime Ramos dizem-se "satisfeitos" com os resultados das governações municipais, por acaso laranjas. Por outro lado, afiançam que o governo se esforça para melhorar a situação. Melhorar o quê, se os resultados já os deixam tão "satisfeitos"?!

Se a 'estação parva 2009' entrou para os anais da criação surrealista insular, a de 2010 ameaça derrubar todos os recordes do absurdo.

O ano passado, por esta altura, saíamos de eleições europeias e avançávamos para legislativas nacionais e autárquicas. Campeava o habitual nervosismo. Na noite eleitoral europeia, emergiu da euforia social-democrata a descoberta de que Sérgio Marques não passava de 'um militante qualquer'. Nascia o majestoso cognome 'Único Importante', atribuído pelo omnipotente chefe a si próprio.

Por esses dias, o presidente de São Vicente, que era Humberto Vasconcelos, não apanhou desconsideração menor, despachado que foi da recandidatura numa reunião de cinco minutos e delatado como "rapaz ao serviço da maçonaria". Pelos demais concelhos, padeciam os outros presidentes, na expectativa de mais quatro anos de poder.

Ambiente escaldante nesse arranque da 'silly season 2009'. O chefe entregava ambulâncias e inaugurava becos. Avisava os empresários para não darem publicidade a "certa imprensa". Ameaçava "eliminar" jornais que falassem em desemprego.

Este ano, sem eleições, o solstício de Verão destemperou ainda mais certos crânios. O cidadão comum, condenado ao papel de mexilhão, vive apavorado e desorientado.

De manhã, avisam-no de que será 'traidor' se 'envenenar' as relações com Lisboa. À tarde, berram-lhe que será 'traidor' se não fizer guerra a Sócrates, que continua a querer 'a desgraça da Madeira'.

A dado passo da intervenção comicieira, escuta o auto-elogio das 'pazes com Lisboa'. Noutro passo da mesma intervenção, é chamado a guerrear Lisboa para 'acabar com a situação em que o país caiu'. Mais à frente, ouve dizer que 'o que lá vai lá vai'. Um minuto depois, exigem demissão do ministro das Finanças.
Aplaude-se José Sócrates e depois manda-se 'enterrar este País'.

O chefe bate no peito a dizer que só a Madeira conta. logo depois, oferece-se para 'salvador da Pátria', embora zangado com os 'energúmenos que têm inveja de quem trabalha bem e quer fazer algo por este País'. 

O pacato cidadão recebe ordem para ajudar a enterrar 'o fantasma ridículo do independentismo'. Horas depois, ouve a advertência de que, se 'uns maluquinhos' tomarem conta de Lisboa e beliscarem a autonomia, o caminho é a independência.

O pacato cidadão pasma ao saber que há um dono da Madeira com poderes para declarar a independência e sobrevive desorientado entre 'o ser e o não ser' ao mesmo tempo.

Ontem, pancada nos que fazem queixinhas à ERC. Hoje, envio de queixa à ERC contra RTP e Diário. Amanhã, ordem para fechar a ERC.
Esta laranja ultravioleta!

Critica-se a política que 'defende os incompetentes'... lá longe, em Lisboa. Aqui, as elites culturais, políticas e técnicas continuam devidamente controladas, para não fazerem sombra.

Estimula-se a valorização dos jovens. Mas os recém-licenciados encontram as empresas e os institutos públicos ocupados por reservistas bem abonados.
Classifica-se um livro de 'biografia não autorizada' e 'autoriza-se' Santana Lopes a apresentar o livro 'não autorizado'!
Prega a ética do pluralismo quem impede o seu jornal, sustentado por dinheiros públicos, de publicar opiniões contrárias.

Hoje o chefe está no último mandato. Amanhã de manhã já se vai recandidatar. À tarde, torna a sair. À noite, fica. De enlouquecer delfins e oposição. E o bom senso.
Dramático é que as incoerências sobrenaturais não resultam de falhas de memória. Os autores acham que é assim mesmo: agora dizem que é branco, daqui a pouco dizem que é preto - e todos devem abanar a cabeça que sim, em todos os momentos! E ríamos nós dos delírios do célebre Al-Sahhaf, ministro iraquiano da Informação!
Espanta ouvir deputados nas suas excursões. Só há louvores a tecer. A sério que gostaríamos de saber onde fica essa Madeira que eles descobriram. Onde não há um endividamento monstruoso a ensombrar a 'satisfação'. Onde não há uma 'democracia' estilo Videla. Essa Madeira onde não há um regime de compadrio a que alguns corruptos e vadios azeiteiros de meia tigela se atrelaram, à custa dos mais escabrosos expedientes, tendo em vista parasitar o mais possível o rendimento público à farta-velhaco. Queremos saber onde fica essa Madeira onde não há uns crápulas da pior espécie a empestar o ambiente.

Acreditamos não ser por mera revindicta que alguns deputados laranja tecem análises capciosas. As alterações climáticas fazem mal. Tanto mal que já não será de estranhar que, nas suas passeatas, e na obsessão de louvaminhar a Madeira nova, eles se declarem "satisfeitos" com a ineficácia dos propulsores da reconstrução e até com a falta dos dinheiros prometidos. "Satisfeitos" com a inexistência de um plano contra os erros de ordenamento. "Satisfeitos" com a qualidade do cartão que serve de cama às dezenas de sem-abrigo. Com o bonito número de 16 mil desempregados. "Satisfeitos" com o atraso de salários e falência de empresas, umas atrás das outras. "Satisfeitos" com o trabalho escravo em crónicos ramos de actividade. Com a fragrância peçonhenta das ribeiras e com o lixo no mar, estes dias. "Satisfeitos" com o estado em que o 'desenvolvimento' deixou a costa, sem espaços para o pacato cidadão mergulhar a revolta em mais uma estonteante 'silly season'.

Melhor seria os andantes deputados visitarem as araucárias e os papagaios anões do Jardim Botânico, as araras da Quinta das Angústias, o verdejante Pico das Pedras, o cadeiral da Sé, as freguesias típicas em dia farto de arraial.

Ao tórrido calor do desvario, o perpétuo chefe das Angústias já se treina para as aventuras do 'arrastão' de Agosto, no areal. Vai dissertando sobre a delicada questão do filho de Ronaldo e a prestação 'miserável' da Selecção de futebol na África do Sul. Repete e repete os ataques à hidra comuno-socialista: "A Pátria não se pode deixar vencer pelos medíocres que hoje andam no poleiro." E o pacato cidadão reza para que tão honrados propósitos contra a mediocridade se apliquem cá e não se desvaneçam às primeiras brisas de Setembro, na ressaca do Bar Henrique. Como aguentar outras quatro ou cinco versões desta 'estação parva' que ameaça alastrar a todo o ano?

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