Vão de férias e para longe

12 Ago 2018 / 02:00 H.

Arreliou-nos a constatação que os políticos regionais se mostram comedidos nas viagens estivais. É pena que só alguns voem para a Tanzânia. Todos perdem. Um conselho: Não lhes siga o exemplo. Devia ser obrigatório sair do espectro doméstico por uns tempos. E para longe, onde a probabilidade de convivência com outros nativos do rochedo seja remota.

Pelo menos uma vez por ano, de bote, de ferry ou de ‘gaivota de ferro’ é importante assumir a fuga temporária como acto higiénico elementar. Em nome da sanidade mental. Mas também para deixar respirar toda uma fauna subserviente, pródiga em impulsos primários e obediências cegas. Para libertar o espaço mediático dos maus odores e olhares. Para dar protagonismo aos que já foram e vieram sem ter a doce sensação de descanso.

Se ainda não foram de férias, vão e para longe. Não se confinem à babujinha que não lava a alma, à bilhardice inconsequente do milagroso areal, às intrigas das barracas festivaleiras, aos acampamentos em que se ensaia o desenrasque. Experimentem o gourmet e o spa, valorizem-se nas expedições culturais e experimentem o que é não ter malas uma vez chegados ao destino. Vivam os eventuais assaltos como se de actividades radicais se tratassem e vejam nas prováveis intoxicações alimentares um argumento dietético.

Se o dinheiro é problema, há bancos que adiantam a uma taxa de juro miserável. Tanto que todos eles agora cobram tudo, dos cartões às transferências. Ou então peçam emprestado ao mercado paralelo, esse mesmo que se gaba de compensar favores com benesses.

Arejem. Tentem sobreviver sem os ‘likes’ sociais. Hidratem-se. Aprendam a contar até 10 antes de disparatar. Ganhem mundo.

Uma vez regressados, verão quão provinciano é fazer dos arraiais um palco político, quão redutora é a propaganda sem nexo, quão alucinante é a súbita febre de tudo assessorar sem nada sustentar, quão imbecil é não responder a perguntas nas conferências de imprensa, quão absurda é a mania de todos culpar por algo que apenas tem como responsável e autor aquele que aponta o dedo.

Se oxigenarem a massa encefálica verão que terão mais poder de encaixe e de antecipação, que ganharam resistência ao amuo fácil e aumentaram a capacidade de tolerância. As viagens ajudam a relativizar rotinas, mesmo que agudizem a imensa vontade de voltar a fugir para longe, sempre que as hipocrisias insulares se transformam em surto.

Ricardo Miguel Oliveira
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