Um gozo típico

Gozar com os madeirenses é o que fazem alguns daqueles que cá mandam

14 Out 2018 / 02:00 H.

“Deixem de gozar com a inteligência dos madeirenses”. O apelo com destinatários nacionais tem a assinatura de Miguel Albuquerque. Estamos de acordo. Mas será que o Presidente pensou no efeito boomerang do arremesso político?

Gozar com os madeirenses é o que fazem alguns daqueles que cá mandam, sem saber como ou sem ouvir quem sabe, com a complacência dos opositores acomodados ou entretidos com miragens.

É repetir até à exaustão que a economia cresce há muitos meses - na cassete governativa só muda a terminação -, e teimar em complicar a vida a quem quer apanhar a boa onda. Provas? A denúncia foi feita esta semana perante 800 congressistas pelo presidente da Ordem dos Economista na Madeira, Paulo Pereira: “Gostaríamos que os governantes tivessem em conta que, para o sucesso da sociedade e a sua prosperidade, é preciso rentabilizar as empresas, por isso o repto para que desburocratizem o sistema para as empresas”.

É garantir que a perda de passageiros no aeroporto está estancada e, quando estão passados nove meses de 2018, a ANA Aeroportos de Portugal vir dizer que, afinal, há um quebra de 2%.

Gozar com os madeirenses é fazer oposição a quem quer que seja à conta de um novo hospital, o que levanta dúvidas sobre as verdadeiras intenções de tamanha empreitada e até sobre a necessidade da obra, quando cruzada com o drama demográfico.

É congratular-se com decisões de curto prazo, como se não houvesse amanhã. Ter 14 milhões de euros no Orçamento de Estado dedicados ao hospital por muitos desejado até podia ser motivo de regozijo se à mesma hora não houvesse um logro maior no topo da actualidade, esse mesmo que transforma uma comparticipação nacional de 50% num apoio de 30%.

Gozar com os madeirenses é encarar um furacão - que felizmente não deixou grandes marcas - como se de um ventinho mais agreste se tratasse. O que vimos foi um preocupante ‘lavar de mãos’, com dezenas de entidades regionais a emitirem comunicados na lógica “depois não digam que não avisei”. Em dia de isolamento quase total alguém ouviu falar ou viu funcionar o plano de contingência do aeroporto da Madeira?

É prometer estudos para tudo o que se revela importante executar, mas nada fazer depois de pagos e concluídos ou então deixar na gaveta perguntas que deveriam ser respondidas em nome do investimento.

Gozar com os madeirenses, pelo menos com alguns, é anunciar em Abril um congresso partidário para Dezembro e depois adiá-lo para Janeiro. Ou prometer uma cidade livre de carros mas que surge cada vez mais atrofiada. Ou assumir compromissos eleitorais que são abandonados por influência do calendário 2019. Ou deixar calotes por todo o lado.

É sobretudo dar-lhes esperança em vários domínios - nomeadamente o de poder deixar a Região a preços aceitáveis, seja pela revisão dum modelo que compromete a mobilidade de uns quantos, seja pela atracção de uma terceira companhia aérea na rota Madeira-Lisboa - para depois deixá-los à deriva, mesmo que desta vez entregues não a um, mas a três boletins de voto no próximo ano.

Ricardo Miguel Oliveira
Outras Notícias