Reinventar é preciso

Marcelo pediu. O País conjuga o verbo. No imperfeito. Ou no condicional

07 Jan 2018 / 02:00 H.

2018 deverá ser o “ano da reinvenção”. A palavra de ordem presidencial, usada seis vezes na mensagem de Ano Novo, pressupõe coragem. E implica gestos concretos: reconstruir o que a incúria humana e o desleixo colectivo deixaram que o fogo consumisse; refazer a estrutura de pessoas e comunidades, sobretudo as mais fragilizadas pelas desgraças; redescobrir Portugal profundo e esquecido, o que é lembrado apenas quando há eleições ou catástrofes; e restaurar a confiança dos portugueses naquilo que não se esgota na propaganda, feita de “estabilidade governativa, finanças sãs, emprego crescente, rendimentos”.

Uma empreitada em nome da qualidade da vida e da segurança de pessoas e bens, que não se faz com improviso, toneladas cimento ou promessas milionárias, mas com “verdade, humildade, imaginação e consistência”. Até porque é preciso “ter a certeza de que, nos momento críticos, as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades”.

O discurso motivacional de Marcelo Rebelo de Sousa tem tanto de factual e de óbvio, como de discutível. O País precisa de menos Estado, que não é pessoa de bem, antes o principal responsável pelo estado a que isto chegou. Logo, não é de fiar porque falha a toda a hora.

Mesmo depois dos avisos presidenciais a máquina pública já claudicou. Tanto na República, como na Região. Nem para receber dinheiro abre a porta. Foi preciso ser notícia que era impossível pagar as contas da água neste início de ano para haver alargamento de prazos, sem custos, nem juros. Já agora quando é que alguns municípios acabam com as taxas de justiça e outras manobras fiscais quando alguém se atrasa sem culpa no cartório?

E o que seria do gato mais famoso do País se a comunicação social não apertasse o cerco à negligência que em muitos outros casos dá cabo de malas e de encomendas e não responde às queixas?

Na Saúde, cada vez menos ocupada com a promoção de bons hábitos e com a prevenção, e manifestamente absorvida com o tratamento das doenças, falta lucidez. Por exemplo, perante a grande afluência à Urgência Hospitalar, o SESARAM solicita à população para recorrer a este serviço apenas em situações graves e urgentes. Pergunta o povo, a quem foi ensinado que mais vale prevenir do que remediar, mas que não tem consultas para breve, nem sai da lista de espera das cirurgias há anos: morrer em casa dá desconto? Quantos sabem fazer uma autoavaliação correcta dos sintomas que por vezes nem os especialistas diagnosticam com rigor? Quantos têm possibilidade de pagar consulta no privado, mesmo assim não escapando ao risco de ser humilhados por médicos exaustos e insensíveis? E quantos centros de saúde são capazes de acudir sem dramas as dores daqueles que muitas vezes sentem estar a entrar numa mera estação de transferência de doentes para os hospitais?

No desporto os influentes demitem-se de intervir. Preferem sustentar a delinquência e a corrupção do que limpar o balneário. Na mobilidade encalhada é o que se vê, mais para alimentar tertúlias do que para honrar o princípio da continuidade territorial.

No serviço público, em vez de respostas de proximidade, o Estado patrocina fecho de balcões, matéria sobre a qual os comentadores do regime, entre os quais o Presidente da República, nada dizem. Os Correios são indevidamente tratados como se ainda fossem o único operador postal em Portugal, mas para muitos, neste País que não vai para novo, é o espaço vital onde levantam reformas e despacham contas, algumas do Estado que manda fazer quase tudo pela internet mas não fez tudo para combater a infoexclusão.

Na política, repleta de impreparados para lidar com catástrofes, a par de especialistas em interesses suspeitos, benefícios pessoais e burocracias dispensáveis, é a “trapalhada” do costume.

Se o desígnio reinventor é para levar a sério a cidadania atenta também não pode conjugar o verbo no condicional, como que a desculpar-se antecipadamente pela inércia ou calculismo. Há sempre um ‘se’ a mais na hora de decidir, a par do ‘já agora’ dos acordos secretos.

Em seis dias está visto que reinventar é preciso, mas para tal, em 2018, importa haver menos semântica e mais acção, menos ontem e mais amanhã, menos presunção e mais convicção.

Ricardo Miguel Oliveira
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