Portugueses de segunda e ‘girl’ premiada

18 Mar 2018 / 02:00 H.

Antigamente era recorrente dizer-se que os madeirenses eram portugueses de segunda. Os anos passaram e quase tudo se alterou. O poder de compra aumentou e há mais qualificação profissional. No entanto em muitos aspectos não evoluímos. Regredimos. O da mobilidade é um deles. Uma ilha está sempre condicionada, quer seja por imponderáveis meteorológicos, que se têm feito sentir com muita intensidade nos últimos tempos, quer por circunstâncias que não deveriam acontecer, em respeito pela continuidade territorial. A questão do modelo do subsídio de mobilidade tarda em resolver-se. Ninguém entende porque motivo se regista tanta demora em se encontrar uma solução que torne justa e ágil um procedimento que deveria ser normalíssimo e acessível. Os políticos encontrarão sempre justificações mais ou menos convincentes para explicarem uma odisseia que não tem fim. Os de cá e os de lá. O que começa a tornar-se evidente é que o trabalho de casa foi muito mal feito. Enquanto não se resolve este assunto determinante na vida das pessoas, junta-se outro para entreter e fazer queimar tempo. O do ferry. Mas já lá vamos.

Na semana passada o segundo voo fretado pelo Governo Regional para trazer estudantes de Lisboa esgotou-se em poucas horas. Para conseguirem uam reserva de lugar muitos pais sujeitaram-se a permanecer nas imediações da Loja do Cidadão local escolhido pelo Executivo para operacionalizar o voo depois da alegada batota feita pelas agências de viagens no primeiro charter, muitas horas antes da sua abertura.

A longa fila de interessados numa passagem de ida e volta pelo valor de 65 euros, veio demonstrar que no caso concreto da mobilidade pertencemos ainda ao segundo patamar da cidadania portuguesa. Os madeirenses não se podem conformar com decisões ao jeito do típico desenrascanço português. Precisamos de uma decisão concreta, justa, equitativa, que permita reservarmos passagens aéreas com comodidade, rapidez e simplicidade. Que se acabem com as desculpas, com os “incidentes processuais” que têm minado este processo desde o seu nascimento.

Os madeirenses não podem ser tratados, em circunstância alguma, como portugueses de segunda por estarem a mil quilómetros de Lisboa. Quem tem de se entender que se entenda e que prescinda das conhecidas táticas e manobras eleitoralistas na praça pública.

Quanto ao ferry é cada vez mais evidente que a intenção não vai passar da fase concursal. De adiantamento em adiamento o Governo vai admitir que na ausência de armadores que garantam a operação marítima não haverá ferry para ninguém.

Esta semana ficou a saber-se quem vai presidir às Sociedades de Desenvolvimento. Sem surpresas o Governo Regional nomeou uma deputada do PSD, que começou a carreira na JSD, passando pela presidência dos Investimento Habitacionais e por uma derrota num município roubado ao PSD por um dissidente inconformado com a sua exclusão na corrida ao concelho, que veio a vencer.
A referida nomeada regressou ao local de origem, ocupando o seu lugar no Parlamento Regional, depois do veredicto popular desfavorável. Mas isso não era suficiente. Tinha de ser compensada pelo esforço despendido na contenda eleitoral e por se ter sacrificado em nome do partido.
Se isto não se encaixa na perfeição no famigerado modelo dos ‘jobs for the boys’ não sei o que poderá encaixar-se?

Há assim tanta falta de quadros para os lugares de decisão ou o Governo rendeu-se de vez – a um ano das eleições – ao pagamento de favores aos seus discípulos? O povo exclui, o Governo reabilita! Depois não se queixem.

Roberto Ferreira
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