Ponha-se na fila!

06 Ago 2017 / 02:00 H.

Quer levantar o dinheiro que adiantou às companhias aéreas, qual mecenas que, substituindo-se ao Estado caloteiro, é anestesiado com a promessa de reembolso fácil? Ponha-se na fila!

Precisa de receber com prontidão a reforma a que tem direito, embora por vezes os valores configurem esmola? Ponha-se na fila.

Quer renovar o cartão de cidadão, obrigado que está a actualizá-lo de 5 em 5 anos, ou seja, 20 vezes se chegar aos 100, pagando nessa hipótese, e numa vida, 400 euros em burocracia só porque nasceu português? Ponha-se na fila.

Tenciona levantar o remanescente das consulta médicas

na Rua das Pretas que por aquilo que se vê mais parece a das Dificuldades? Respire fundo pois à sua frente há quase 200 em desespero e mesmo que alguns desistam será inevitavelmente um dos lesados dos serviços públicos miseráveis.

Sonha que até mesmo para sair da ilha não haverá obstáculos, nem ventos traiçoeiros ? Ponha-se na fila que quem manda anda a ver como culpar São Pedro.

Tire a senha e espere é a lógica dominante num País de vias verdes e de outras inovações, dos nibs e das digitalizações, mas incapaz de se colocar ao serviço eficaz daqueles que pagam impostos. E na ilha da promessa fácil, com mais verdes do que maduros, nos Correios, na Loja do Cidadão, na Segurança Social e nas Urgências o lema é o mesmo. Ponha-se na fila e não refile, que é o mesmo que dizer: perca horas de trabalho e paciência, e se tiver tempo, peça justificação e respeito.

É certo que fazer fila não é um exclusivo da ilha. Em Paris há quem faça fila para comprar a camisola de Neymar que chegou ao PSG a troco 222 milhões euros, soma que o clube começa a abater ao vender cada exemplar a 140 euros.

Nos EUA milhares de pessoas formaram filas esta semana para se candidatar a vagas de emprego para embalar e despachar produtos para clientes da Amazon.com.

Na Venezuela formam-se filas com gente esfomeada à procura de alimentos.

Em Lisboa, o Metro anda à cunha, os autocarros não passam a horas e há filas de mais de uma hora para apanhar um elétrico. E no aeroporto as esperas de mais de uma hora para entrar na capital subiram 500% desde o início do ano.

Os motivos diferem e não se confundem. Por aqui a fila faz-se à conta de egos e cinismos, silêncios e baldas, lobbies e incompetências em lugares de decisão.

Sem surpresa, há quem fuja para outro lugar, de modo a sobreviver. A debandada de professores e de inteligência são apenas sinais, neste tempo em que alguns decidem não pactuar mais com a ficção e as perseguições, com os bufos e as queixinhas, com os desleixos e os repentismos.

Ricardo Miguel Oliveira
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