Os culpados somos nós!

Os eleitos que agem por impulso espalham-se. Mas sem dor

22 Abr 2018 / 02:00 H.

Por estes dias, a política descredibiliza-se de forma estonteante que a todos atropela, com a tal pressa que a classe que legisla caprichos ou fomenta o vazio normativo diz abominar. Os prevaricadores ou suspeitos penitenciam-se num ápice como se não houvesse amanhã, contando com a aliada fraca memória colectiva para obter dividendos futuros, mais subsídios por certo ou então uns ‘likes’ momentâneos. Mas para quê?

A culpa do erro político não é de Ferro ou de Sócrates, de Pinho e de Lino, de Miguel ou de Pedro, de Costa ou de Paulo, de Emanuel ou de Carlos, de Victor ou de Gil, de Paulino ou de Sara ou de quem quer que seja que, estando incumbido de fazer o melhor pelo País e pela Região, pelos outros ou por si mesmo, agora e no passado, errou, mentiu ou desleixou-se.

Alguém legitimou o delírio compulsivo, a sobranceria inexplicável, o palavreado irrepetível, a usurpação de funções, as agendas paralelas, o ódio posto na vingança e até a desqualificação crescente na gestão da coisa pública. Se assim não fosse não exibiriam costas largas, nem andariam de peito cheio, a gastar o que não têm, a prometer o que não podem dar e a ofender aqueles a quem devem gratidão.

Os culpados somos nós, que os elegemos ou permitimos que fossem eleitos, que lhes demos visibilidade quando eram anónimos, palco quando não tinham chão onde pisar, a mão quando caíram, o pão quando eram frágeis, o não quando pisaram o risco, os alertas para um rumo assertivo, os incentivos a mandatos eficazes e o voto de uma confiança por vezes traída.

A culpa não é dos que agora ou desde sempre lidam mal com a verdade, sem a qual a ética é fogo de vista, são incoerentes, revelam incapacidade de distinguir o ego excêntrico que se alimenta de notoriedade e de espectáculo, do serviço que deviam prestar com humildade, e confundem assertividade com ressentimento.

A culpa é colectiva quando não escrutina a toda a hora, nem exige consequências imediatas, e tolera sem reparo o que noutras paragens habitualmente dá demissão, inibição de exercício de cargos públicos e até cadeia.

Os culpados somos nós. E nalguns momentos menos lúcidos, sem emenda, caso contrário, os imberbes da política não tinham chegado ao poder sem passar pelo detector de mentiras, o Parlamento não seria usado como abrigo dos transgressores e a campanha das eleições seguintes não seria mais um passeio folclórico.