Os barretes de Natal

24 Dez 2017 / 02:00 H.

Depois de mais um ano a enfiar barretes, os agentes dos diversos poderes vestem a hipocrisia da época, à espera de caírem nas boas graças da multidão. O Natal dá-lhes jeito, mas o deles, feito de adereços, promessas e milhões, não é o que a Madeira mais precisa para enfrentar com equilíbrio e bom senso os desafios da ultraperiferia existencial. Os últimos debates e pregões, por vezes assentes em perguntas e certezas que se repetem todos os anos e sempre que se discutem orçamentos, apontam para uma cada vez mais óbvia nova falência.

Resta-nos o verdadeiro Natal que é luz, esse exigente apelo da transparência em nome da autenticidade. Mas quem se viciou nas chapeladas e na ocultação das verdades, transformando a vida de terceiros num inferno, dificilmente conseguirá experimentar “as festas felizes”, por muito que as cante com afinação.

Natal é partilha autêntica, que não se confunde com a perversa moda de cabazes distribuídos sem critério, com óbvios objectivos eleitoralistas e incentivos despudorados ao facilitismo social.

Natal é paz, aquela que cada um sente quando dá sem esperar recompensa, quando derruba preconceitos sem ofender a diversidade, quando vence sem humilhar quem perde.

Natal é generosidade, oportunidade única para dar palco aos ignorados, a vez aos necessitados, o lugar a quem desespera, o descanso aos esforçados, o tempo a quem não pára, o perdão a quem erra, o elogio aos talentosos, o mérito a quem merece.

Natal é carinho, a capacidade de alegrar-nos com a realização alheia, com as conquistas que julgávamos impossíveis ou com o rumo determinado dos irreverentes.

Natal é recomeço, momento de regeneração, de descoberta e de esperança. Mas também de cobrança, de escrutínio, de monitorização, de protesto, desde que focados na afirmação dos valores que promovam a dignidade humana, em harmonia com todos os seres vivos, sem estigmatizar.

Natal é amor, não tanto o que se diz para consumo mediático, mas acima de tudo o que se pratica com fervor, em cada gesto, como se fosse o último.

Natal é também o que cada um quer que seja. É por isso que nestes dias de libertação até quem se habituou a ludibriar ou a iludir é bem visto.

Ricardo Miguel Oliveira