O fim de um ciclo

08 Out 2017 / 02:00 H.

As eleições de domingo passado vieram reafirmar o desejo popular que se iniciou nas Autárquicas de 2013. A vontade dos eleitores foi ratificada e, goste-se ou não, tem de ser respeitada. E que disseram nas urnas? Que acabou definitivamente a hegemonia partidária na Região, após quatro décadas de intoxicação propagandística de PSD dominante. Que valem mais as pessoas e os projectos do que as fidelidades cegas a uma bandeira ou ao ruído dos comícios tradicionais. A alternância, em democracia, é saudável. O povo descobriu-a. Ribeira Brava, Ponta do Sol, Funchal, Santana, são alguns exemplos da consolidação do divórcio com o PSD. A honra do convento laranja foi salva em apenas três concelhos, um deles, Porto Santo, reconquistado ao PS por uma unha negra. No Funchal, Rubina Leal, uma aposta pessoal de Miguel Albuquerque, não foi capaz de bater Paulo Cafôfo, que chegou à maioria absoluta, deixando o PSD muitos furos abaixo da expectativa gerada e promovida pelos seus estrategas nas duas últimas semanas da campanha.

Os resultados do passado dia 1 vieram precipitar a acção do presidente do Governo na remodelação do executivo, anteriormente já muito ventilada e comentada na praça.

Uma das leituras que se pode inferir é a de que as pessoas não estão satisfeitas com a governação da Região. Daí a pressão que faz Albuquerque precipitar uma reestruturação que vai mexer com a orgânica governativa e com o seu núcleo mais forte e, ver-se-á, minimizar o foco da acção no apertado controlo orçamental, afastado que está Rui Gonçalves, acérrimo defensor da disciplina financeira e figura colada à ditadura do PAEF. Será suficiente? Precipitado? Sem dinheiro “não há festa” e os políticos profissionais sabem-no, especialmente quando há eleições no horizonte. O presidente do Governo está a querer gerir as expectativas, com aparente serenidade, no entanto, a dificuldade em recrutar quadros de qualidade para o seu governo não é bom apanágio.

Mas, em vez de estancar e mostrar domínio sobre a situação, Miguel Albuquerque ausentou-se para o estrangeiro, adensando rumores, boatos e cenários que em nada contribuem para o equilíbrio governamental. E muito se tem especulado à volta da mudança da equipa, lançando-se nomes para a praça, num exercício conhecido de, por um lado, queimar potenciais secretariáveis e, por outro, testar a opinião pública face ao candidato. Veremos que novidades vai apresentar o presidente e se se confirmam os receios de alguns dirigentes do partido, que não gostariam de ver militantes como Rubina Leal, derrotada nas urnas há uma semana ou Pedro Calado, a trabalhar numa empresa privada, com responsabilidades executivas. Que a expectativa gerada não se converta numa operação falhada, onde se baralha apenas para dar de novo.

As pessoas, as que votaram, querem a saúde, a educação, a segurança social a funcionar e os seus problemas resolvidos. Sobre o rumo político têm vindo a pronunciar-se, cada vez mais, contra o PSD e os seus protagonistas.

Encontrará este governo estabilidade necessária para ir adiante ou será uma oportunidade perdida e um mergulho no pântano?

Roberto Ferreira
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