O celibato dos padres

05 Nov 2017 / 02:00 H.

Durante anos comentou-se nos meios paroquiais notícias de que o prior teria sido pai desta ou daquela criança, filha da governanta, da empregada da casa ou da catequista jovem e sensual. O assunto, raramente confirmado, era tema (quase) tabu e abafado pelos corredores da Igreja. Durante décadas foi assim. O sacerdote-pai não reconhecia o filho e continuava a exercer o múnus. O tema, sempre delicado, era falado à boca pequena e quantas vezes se ouvia dizer que determinada criança era parecida com o padre x, y, z. Aqui, na Região, houve casos concretos, sem nunca, nenhum deles ter sido confirmado pelo visado ou pela Diocese. Alguns ‘afilhados’ andam por aí, filhos de pai incógnito.

A postura da hierarquia da Igreja madeirense sempre foi dúbia nestas e em muitas outras questões. A posição oficial resumia-se, quase sempre, ao “não comento”, para deixar o tempo fazer esquecer. A forma como lidou com o caso do padre Frederico, nos anos de 1990, foi paradigmática, tendo gerado à época um coro de afinadas críticas contra a postura do Bispo.

Com a evolução tecnológica há uma auto-estrada da informação de serviço permanente à disposição de todos os que têm acesso à Internet. Uma conversa tida ao balcão do bar junto à igreja paroquial chega num ápice a milhares de consumidores, muitos sequiosos de tricas e de intriga da vida privada dos outros.

A notícia de que o pároco do Monte é pai de uma menina, nascida em Agosto, abalou parte da comunidade católica e provocou uma réplica no Paço Episcopal. O facto de o padre Giselo Andrade ter gerado um novo ser, mantendo ao mesmo tempo o ministério sacerdotal, apimenta conversas de fiéis, vulgo ‘ratos de sacristia’, que o querem, agora, condenar por ter violado a regra do celibato eclesiástico. Para além das razões do foro privado de cada um, incluindo naturalmente o do padre Giselo, estamos no tempo em que aquela norma restritiva deveria ser debatida e alterada. Que implicação teológica terá a possibilidade dos padres em exercício casarem e poderem ter filhos? O estado matrimonial será irreconciliável com o sacerdócio, quando a Igreja se debate com uma crise de vocações sem paralelo?

O pároco do Monte, ao reconhecer a sua filha, não fez mais que o seu dever: deu-lhe identidade! Se deve ou não continuar na profissão que escolheu, isso apenas lhe deveria dizer a ele respeito.

A Igreja não pode continuar cega e muda face à vida terrena e às questões de natureza concreta que se colocam no quotidiano, incluindo as dos seus membros mais próximos. Se quiser subsistir não pode fazer de conta, ser ambígua ou negligenciar. Tem de encarar e modernizar-se, ir ao encontro dos seus. Frei Bento Domingues ou o padre e teólogo Anselmo Borges, para citar duas vozes livres dos cânones oficiais, já vieram a público lançar o tema e apontar caminhos que não o da resignação forçada, no caso de um sacerdote assumir a paternidade biológica de uma criança. Que os católicos saibam seguir-lhes o exemplo. O debate é incontornável, pelo menos.

Roberto Ferreira
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