Nada de novo sobre a Terra

19 Ago 2018 / 02:00 H.

O pior que pode haver em política está plasmado no caso do Monte. Ousar retirar dividendos de uma tragédia imensa, que transformou um lugar de alegria e de festa, numa romaria para homenagear as 13 pessoas que lá sucumbiram em 2017, é do mais baixinho que se pode observar.

Infelizmente isso aconteceu. O caso da árvore do Largo da Fonte é um caso sério, que deve ser tratado na esfera da Justiça. Tudo o que for dito por fora mexe com sentimentos, com emoções, com dor. Os especialistas já falaram, a Câmara do Funchal já falou, a junta de freguesia também. Cabe agora ao tribunal, serenamente, aferir responsabilidades, determinar ou não a existência de culpados e proceder às indemnizações devidas. O resto é ruído, palpite avulso, mau gosto, que deveria ser evitado para não agudizar a dor dos que continuam a sofrer com a tragédia de 15 de Agosto.

Só o tempo conseguirá esbater o peso emocional associado às Festas do Monte. O tempo e a Justiça, que se pronunciará no próximo mês. Ou acusa ou arquiva. Qualquer que seja a sua decisão terá implicações numa série de variantes, também no âmbito político. Um dos candidatos a presidente do Governo Regional nas eleições do próximo ano, Paulo Cafôfo, é um dos arguidos. A decisão judicial pode intervir no rumo dos planos entretanto traçados. Em Setembro voltaremos ao tema.


O que se passa, afinal, com a Binter? A questão de ‘um milhão de dólares’ tem feito derramar muita tinta, mas continuámos sem conhecer os verdadeiros motivos do trajecto errático da companhia espanhola na linha Madeira-Porto Santo. Comunicados do Governo Regional e da República não têm faltado. Mas não são conclusivos nem respondem ao essencial. O que levou a companhia a ter cancelado tantos voos, quando operava, ao mesmo tempo, com a mesma aeronave, para Las Palmas e Tenerife?

Lisboa tem responsabilidades acrescidas neste dossier e deve explicações cabais aos madeirenses. Não podemos estar reféns, prejudicando uma ilha e uma população que vê Agosto como o mês-salvador da sua pequena economia, de factos ou vontades de uma empresa estrangeira ou da má vontade do governo central.

Também nesta questão não interessa muito o dividendo político que se pode retirar, até porque o Governo Regional fez parte do júri que escolheu a Binter em detrimento de outros concorrentes. Importa, isso sim, esclarecer e exigir que a companhia aérea cumpra com o caderno de encargos e levante voo a tempo e horas.


Ir a Lisboa e regressar no mesmo dia para tratar de um assunto inadiável custa, por estes dias, ao português da Madeira mais de 350 euros na easyJet e 470 euros na TAP. Este assunto tem ‘barbas’, enoja até, mas a verdade nua e crua continua a assentar na impotência de dar a volta ao grave problema de mobilidade que nos afecta. A situação é injusta, desonesta e escabrosa. As companhias fartam-se de ganhar dinheiro com esta rota, mas demonstram zero de consideração pelos passageiros residentes. Veremos se o poder político tem força para vergar as empresas aéreas a, pelo menos, aceitarem uma forma de reembolso mais justa e expedita.

Até lá, nada de novo sobre a Terra!

P.S.: “Rio corta 600 mil euros na Festa do Pontal”. Este foi o título de um jornal do continente a semana passada. Este é o presidente do PSD, homem das contas certas que não gosta de esbanjamentos, que veio ao Chão da Lagoa dizer que o País precisava de ter tido três ou quatro albertos joão. Vai repeti-lo na festa que marca a rentrée política do seu partido no Algarve?

Roberto Ferreira