Marketing político e o que interessa

09 Set 2018 / 02:00 H.

Estamos a menos de um ano de três actos eleitorais. 2019 vai ser um ano atípico em termos políticos, com espírito eleitoral em sobredose. Primeiro as Europeias, onde vai contar mais a escolha dos cabeças-de-lista dos principais partidos (o PSD de Rui Rio tem o seu primeiro teste aqui) do que as ideias em torno do projecto europeu, cada vez mais arredado dos portugueses. Depois deverão surgir as Regionais e por último as legislativas nacionais. Um fartote para um país onde a abstenção é o único ‘partido’, à priori, com lugar garantido no pódio dos vencedores.

As máquinas partidárias aquecem os motores e começa-se a definir o modelo da contenda eleitoral. Por cá uma proposta inócua (a que defende a tarifa social da água para os bombeiros do Funchal) acicatou os ânimos entre PSD, CDS e ‘Confiança’, que vieram a terreiro reclamar a paternidade da ideia, com acusações estridentes e manifestamente exageradas. Todos a disputar a atenção dos profissionais de duas corporações de ‘soldados da paz’. O episódio é apenas elucidativo, uma espécie de aperitivo para o que nos espera. Até ao fim do processo eleitoral do próximo ano será assim. Muito ruído, soundbytes e blá-blá-blá em doses fastidiosamente generosas. Esperemos que lá no meio surjam discussões um pouco mais aprofundadas sobre o que realmente importa. Muito está em jogo na Madeira em 2019 e também nas lideranças dos partidos que, como se sabe, têm de satisfazer clientelas internas e garantir o emprego aos correligionários.

No campo da táctica há também muita disputa. O PS-M aposta na dupla vitória para fazer render a ideia de que os assuntos da Região vão passar a ter outra prioridade e outra atenção de Lisboa, com Paulo Cafôfo no comando da Madeira e António Costa na República.

O PSD-M, como já aqui se disse, vai diabolizar ao tutano o actual primeiro-ministro, “único culpado” de mais de 90% dos males que nos dificultam a vida. O ensaio está feito desde a remodelação que levou Pedro Calado ao Executivo, e não vai mudar. Lisboa reprime e não gosta da Madeira, bem podia ser um dos slogans da próxima campanha laranja. O espírito eleitoral vai dominar, com e sem senso. E o que interessa mesmo à vida das pessoas?

Um dos temas que tem dominado a agenda informativa nacional prende-se com revolução que a Área Metropolitana de Lisboa quer imprimir aos passes dos transportes públicos. Quem conhece a capital sabe das dificuldades de mobilidade que milhões de pessoas se confrontam diariamente e do problema sério que constitui a entrada de milhares de automóveis no centro. Impondo um tecto máximo de 40 euros nos passes sociais, os autarcas promovem uma descida extraordinária no valor dos títulos. Haverá poupanças de centenas de euros/mês. Uma família da margem sul ou da zona de Sintra sabe bem o que isso significa no seu orçamento, para além das mais valias ambientais que a medida vai trazer, permitindo o descongestionamento do trânsito em Lisboa, que nas horas de ponta é insuportável.

Na Madeira o valor de um passe mensal para o trajecto Funchal-Porto Moniz custa 124 euros. Para Machico e Ribeira Brava 88 euros. Atenção que a tarifa é ‘social’, isto é, para quem não usufrua de rendimentos superiores a 628,83 euros mensais. No Funchal os preços dos passes situam-se acima dos 40 euros, excluindo estudantes, crianças e idosos, para trajectos maioritariamente curtos. Obviamente que os valores apresentados pelas empresas de transportes da Região não são convidativos para uma família de duas ou mais pessoas, que optará sempre por levar o carro para o trabalho, com todas as implicações que isso acarreta, incluindo a pressão sobre uma cidade cada vez mais caótica.

Alguém já ouviu algum comentário dos políticos da terra sobre esta questão? A medida não merece que alguém a coloque na agenda e lance a discussão pública? Que diz o Governo Regional? Que Lisboa decida e que pague! E os autarcas? Interessa ou não uma política de mobilidade assertiva e amiga do utilizador?

O espírito eleitoral dominante vai permitir a entrada em campo deste e de outros temas importantes na vida das pessoas? Ou vamos desperdiçar um ano a discutir se foi este ou aquele que avançou primeiro com a autoria de uma proposta qualquer?

Roberto Ferreira
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