Esperança de vida?!

01 Out 2017 / 02:00 H.

As anomalias no sector da Saúde carecem de tratamento. Padecem de um mal maior. Merecem muito mais do que notícias.

Não nos cansamos de informar e por muito cruel que seja dar conta do crime inexplicavelmente tolerado vamos continuar a fazê-lo sem hesitações. Mas começa a ser redutor provar a verdade por vezes escondida ou revelar factos com rostos sofridos. Importa agora desencadear uma mobilização colectiva sem precedentes, para que o desleixo não se repita, para que efectivamente a nossa esperança de vida não esteja apenas nas mãos daqueles que sobre ela decidem.

Para alguns, é indiferente revelarmos que no degradado e degradante Hospital dos Marmeleiros mais de mil doentes aguardem, há mais de um ano, por uma consulta de psiquiatria; que a linha nacional de prevenção do suicídio esteja fora de serviço no horário que deveria ser de funcionamento; que para além dos 200 que procuraram apoio psicológico nos centros de saúde após a tragédia do Monte, muitos outros aguardem por uma consulta que tarda; que uma criança de oito anos, a quem foi diagnosticada leucemia, e que está a fazer quimioterapia na Região desde Maio, tivesse que passar 12 horas no Hospital porque o tratamento quinzenal voltou a falhar – sim, não foi a primeira vez; e que a falta de condições físicas e de recursos humanos da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do Hospital Dr. Nélio Mendonça esteja a preocupar e a revoltar os profissionais de saúde que lá trabalham, dada a crescente degradação dos materiais...

Quase todos os dias acordamos com vergonha desta Saúde que não temos, das sucessivas falhas que não dignificam a vida humana e do desleixo ou burocracia que geram indignação. O último caso, tal como todos os outros, não se cura com lamentos circunstanciais pelos “transtornos causados”. Exige-se respeito pela vida, competência na gestão pública e responsabilidade acrescida.

Revolta-nos ter que chorar vidas só porque estamos entregues à deriva governativa, demasiado entretida com expedientes eleitoralistas.

Os excertos de notícias desta última semana deviam ter tido consequências. Mas não. Ninguém se demitiu ou foi processado. Ou é erro jornalístico ou burocrático. Nunca é erro assumido. Aliás a tutela avisa que há por aí muita crítica infundada de gente que não trabalha no sector, nem o conhece por dentro. Haverá quem conheça melhor a Saúde do que o doente, do que o utente que sofre como ninguém com as sistemáticas falhas de um sistema outrora exemplar no qual são despejados milhões de euros para ser mal gerido, apesar da excelência de alguns profissionais e a dedicação de outros?

Os decisores não têm emenda. Gozam com o doente. Humilham quem quer viver. Tentam calar quem protesta. Ameaçam processar quem noticia. Não admira que poucos tenham falado de Saúde nesta inebriante época de ‘caça ao voto’. Também por isso fica a convicção que campanha para as eleições autárquicas não foi arrojada nas propostas essenciais e nos programas sérios. Aliás, para os eleitores as estratégias adoptadas pelas diversas candidaturas configuram mais do mesmo, desta feita, manchadas pela mediocridade, o que confirma a percepção que nem todos os expedientes usados, as intrigas ensaiadas e os truques da baixa política colheram simpatias.

A democracia que encorajou a frontalidade é agora ninho onde vegeta de bico aberto um bando de detractores sem rosto. Perfis falsos que o Facebook não apaga porque a calúnia paga. Faz mal à saúde ver a esperança definhar.

Ricardo Miguel Oliveira
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