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O protesto educado pode dar votos mas não

10 Dez 2017 / 02:00 H.

Agora que a economia regional cresce - diz o governo que há 52 semanas seguidas! - e que as empresas poupam mais e até começam a investir é recomendável que:

• Decisores e empreendedores sejam consequentes com a responsabilidade social que por vezes apregoam. Por exemplo, reduzindo assimetrias, distribuindo melhor a riqueza. Não é por acaso que, no alegado novo ciclo, as famílias ainda denotam efeitos do sufoco financeiro, têm mais dívidas do que a soma dos rendimentos e não seguram talentos. Quem lê jornais deu conta esta semana que a ‘fuga de cérebros’ vale já 40% da emigração portuguesa por ano. Ora, com a crescente procura externa pelos nossos quadros superiores, a que importa adicionar estágios efémeros e cursos para entreter desocupados, é normal que a taxa de desemprego tenha atingido o valor mais baixo dos últimos cinco anos e meio.

• A cruzada pela diversificação ganhe espaço numa economia excessivamente dependente do Turismo e do CINM, mas pouco dada ao investimento na produção real. Para que os equilíbrios não ocorram à pressa, num cenário de eventuais colapsos importa desde já dar condições, igualdade de oportunidades e se for preciso uns gritos para que não andem todos a fazer a mesma coisa, nalguns casos assentes em modelos muito virtuais.

• As promessas de alívio fiscal sejam acompanhadas de medidas de desburocratização, de uma legalização atempada focada no interesse colectivo e de cabal esclarecimento das novas obrigações, como é o caso do novo regulamento europeu sobre protecção de dados.

• Os apoios disponíveis ao funcionamento sejam derramados com critério. Os 25 milhões de euros que irão ser entregues este ano no âmbito dos vários sistemas de Incentivos 2020 de nada servem se acabarem nas mãos do peritos em criar ‘empresas na hora’ a caminho da insolvência até que uma outra sem cadastro e livre de encargos surja no mercado como novo negócio. Ou se, por via da cunha, caírem nas contas dos mesmos de sempre e que também por isso monopolizam operações, desregulam o mercado e comprometem a sã concorrência.

• Haja uma cultura colectiva do mérito, de modo a que escolhas sejam inatacáveis, orgulho nos melhores e um ataque destemido e competente às origens dos problemas, algo bem diferente das medidas avulso que apenas servem para entreter cidadãos pouco exigentes.

• A ignorância atrevida seja posta no lugar. Se alguns dos que produzem lixo mediático, motivados pela inveja ou outro tipo de dores, conhecessem por exemplo os objectos sociais das empresas não contribuiriam tanto para o anedotário regional.

• Quem tem ideias que as registe dada a facilidade dos sem vergonha em plagiar o que é susceptível de ser bem sucedido. Mas antes, talvez seja básico, identificar uma necessidade, que nem ter que ser local, para a qual importa obter uma resposta pautada pela excelência, aliando a tecnologia à qualidade. É que há muita gente a criar ilusões de curta duração, até com a cumplicidade da banca sempre que é preciso ter dinheiro emprestado, sem olhar para a sustentabilidade dos projectos e sua capacidade de atracção de clientes.

• O compromisso com os valores susceptíveis de nos tornarem referência ganhe outra dimensão. Custa ver Portugal na moda, falado por todo o mundo, desejado por turistas como nunca, mas muito assimétrico e até desumano. Um povo que não trata dos seus expõe-se à humilhação. Exemplos não faltam. Um dos mais cruéis ocorre por estes dias de festa, quando aumenta o número de idosos deixados nos hospitais por familiares sem escrúpulos. Quantos por altura do Natal e do ano novo são internados não por estarem doentes mas porque estorvam? Um povo que se deixa explorar pelos seus arrisca-se a ficar dependente. Quantos dos quase 150 peditórios autorizados em Portugal publicitam os resultados da angariação feitas nas ruas? E quantos, criminosamente, pedem para causas inexistentes?

Agora que parece haver menos argumentos para servir crise como desculpa e há mais tempo para definir rumos, era recomendável que na agenda dos decisores e dos cidadãos preocupados com o futuro não faltassem abordagens ao essencial. A qualidade da democracia depende muito mais do compromisso sério e competente com as necessidades do que das extravagâncias linguísticas dos eleitos. O protesto educado até pode dar votos mas não nos livra da insularidade.

Ricardo Miguel Oliveira