Diabo à solta

20 Ago 2017 / 02:00 H.

O País tem sido fustigado por uma série de acontecimentos trágicos nos últimos tempos. Para além da habitual vaga de incêndios que varre Portugal de norte a sul, todos os anos, durante o Verão, fomos surpreendidos, aqui na Região, pela queda de uma árvore de grande porte, no Monte, que ceifou a vida a 13 pessoas e feriu 49. Pessoas que estavam no local errado, em momento de devoção a Nossa Senhora do Monte. Trágica ironia. O ano passado o Funchal foi flagelado por fogos de grande dimensão, que chegaram ao centro da cidade, causando três mortes e provocando devastação avaliada em largos milhões de euros. Mais atrás, em 2010, a natureza rebelou-se e, muito por incúria do homem e de quem tem a responsabilidade de cuidar da ‘causa pública’, matou 47 pessoas, desalojou centenas, destruindo concelhos. Podia continuar a enumerar eventos fatídicos, uns fruto da acção da ‘mãe natureza’, outros por manifesta negligência de quem deveria saber zelar pela segurança dos cidadãos. E isso é o que revolta. Calamidades existiram, existem e vão continuar a existir. Negligência e desmazelo, infelizmente, vão também continuar a proliferar, para mal de todos. Será que não se consegue retirar nenhum ensinamento das fatalidades do passado? Quem não devia parece mergulhado num labirinto de amadorismo, de falta de estratégia, de visão e de planeamento. Há marketing a mais e resultados concretos a menos.

Muito se tem falado e escrito sobre o tombo do carvalho para o Largo da Fonte. O que fica para a triste história do feriado de 15 de Agosto, no Monte, é que 13 almas sucumbiram debaixo de uma árvore que não deveria ter caído. Por tudo. Porque as árvores não caem porque sim. Caem devido a diversos factores, entre os quais doença, que vai evoluindo, se não for vigiada. E é nesta equação que entra o poder público, aquele que deve garantir a segurança de todos, que tem o dever de vigilância. Ninguém quis, nem planeou, que tal acontecesse. Mas aconteceu. E pode voltar a acontecer. Como é feita a fiscalização das árvores urbanas? Que técnicos asseguram a sua manutenção?

As consequências desta tragédia no Monte têm de ser rigorosamente apuradas, porque morreu gente que foi lá na certeza, mesmo que inconsciente, de que estaria num local seguro. Não se pode ficar indiferente aos repetidos avisos que moradores e junta de freguesia fizeram à Câmara do Funchal, sobre a perigosidade das outras árvores existentes no largo. Pouco importa de quem é o terreno.

Em Portugal fica-nos sempre a terrível certeza de que a ‘culpa morre solteira’, de que ninguém é responsabilizado, quando o poder público (político) está em causa. Aguardemos o tempo da justiça. Que tarde mas que apure e julgue quem e o que tem de ser julgado. Enquanto esse tempo não chega, vem-me à cabeça o desabafo que escutei no calor da tragédia, da boca de um popular, que se encaixa na perfeição nos momentos angustiantes que atravessamos: “O Diabo anda à solta”.

Roberto Ferreira
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