Contra factos não há argumentos

30 Jul 2017 / 02:00 H.

Na dialéctica e na confrontação política quase tudo é utilizado para criticar e malhar no adversário. Em época eleitoral o tom eleva-se e os políticos, uns mais profissionais que outros, deitam mão a tudo para apoucar as ideias, válidas ou não (isso pouco importa) dos outros, fazendo das suas imaculadas ‘obras’, concebidas num momento de especial inspiração.

A época do ano em que nos encontramos costumava ser denominada de ‘silly season’. Não se passava nada de muito decisivo, a não ser actividades adequadas ao momento estival, dos banhos de praia e da retirada dos principais actores públicos, que nos enchem o quotidiano de generosa tralha verbal. Este ano há eleições em Outubro e por isso, muda o figurino. Prevê-se combate firme. Mas que seja centrado em ideias e não em pseudo-factos e manipulações grosseiras da realidade. Os eleitores não perdoam e – convém relembrar – “mais depressa se apanha um mentiroso que um cocho”.

Na semana passada a publicação do Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2016 – no que às autarquias da Região disse respeito – levantou celeuma e algum brado. O documento, que escarrapacha numa só publicação as contas das nossas autarquias, incluindo calotes, prazo de pagamento a fornecedores e engenharias financeiras difíceis de explicar ao eleitorado, faz as delícias dos autarcas cumpridores e o azedume aos menos cuidadosos, no que a contas diz respeito. Em ano de votos ninguém quer ver o seu projecto posto em causa, criticado na praça pública, nem nos jornais. Mas números são números. E quando são apurados e trabalhados por profissionais independentes que se suportam em documentos oficiais do Tribunal de Contas, o caso muda de figura. Números são números. Não podem (não devem) ser criativos nem dados a jogos de semântica. 10 é 10 e 100 é 100. Goste-se ou não.

Na Região a grande maioria dos municípios apresenta passivos controlados e paga a tempo e horas aos fornecedores. A realidade melhorou muito face à imagem negativa de um passado não muito distante. Conhecer a realidade financeira e patrimonial daquelas entidades públicas é um dever de cada cidadão. Os políticos da praça têm de saber discernir onde começa o combate político e onde acaba a demagogia fácil e barata. Fazer jogos e cenários com os números, com as dívidas de mandatos anteriores sem mais, não é um exercício correcto. Em democracia, felizmente, tudo pode ser discutido e criticado, mas a uns exige-se mais responsabilidade e conhecimento que a outros.

Mas não podemos esquecer que estamos num país com partidos que passam semanas à volta de uma lista de mortos, especulando e teorizando sobre se há mais uma vítima a acrescentar à lista provocada por uma infeliz tragédia causada pelos incêndios. Mais valia que tivessem (todos) antecipado ida a banhos, fazendo-nos mergulhar na ‘silly season’.

Roberto Ferreira
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