Complexos de inferioridade

Ninguém é obrigado a ter orgulho nos bem sucedidos. Mas ignorá-los é ridículo

12 Nov 2017 / 02:00 H.

O outrora denominado ‘povo superior’ deslumbrou-se com a adjectivação gratuita decretada no tempo em que a fartura desculpava a irresponsabilidade e hoje, a espaços, alguns dos seus exemplares menos discretos, porventura, sem noção do ridículo, tendem a revelar preocupantes complexos de inferioridade.

Ninguém presta. E quem se impõe ou roubou ou teve sorte. Ou tem cunhas, muitas e poderosas. Ninguém se distingue por aquilo que é. A valorização faz-se por defeito. Este espectáculo degradante de tomar a parte pelo todo é frequente. Tanto que é crescente o desejo dos mais bem resolvidos em emigrar ou de, pelo menos, fugir do provincianismo instalado.

Intimidados por delírios anónimos ou críticas infundadas não são poucos os que do Governo à oposição, dos poderes aos dizeres, do jornalismo à má língua ignoram os méritos alheios, comentam com ignorância atrevida os talentosos, resumem Cristiano Ronaldo à futilidade, ridicularizam a criatividade de Fátima Lopes, criticam os calhaus de Nini Andrade Silva, já não suportam ver João Rodrigues na prancha à vela, julgam que os nossos empresários internacionais são peritos em fuga ao fisco e em calotes por saldar.

Incomodados com a verdade das coisas são também cada vez mais comuns os autores dos reparos às notícias dos nossos mais conhecidos, a par dos que julgam que esta terra não precisa de imprensa livre, já que na era global as redes chegam para as encomendas, até porque o jornalismo causa danos severos à procura do destino turístico. Preconceitos e ódios. Tenham dó. Se há sector que cresce como nunca é o Turismo e nunca nos viram reclamar dividendos por tamanho feito.

Quem tem o curso de superioridade avançada dedica-se a questionar os custos da arte urbana, a espumar de inveja com o sucesso de quem trabalha e cumpre objectivos definidos, perde-se na vida alheia, mas deixa passar sem contestação o que é essencial. Por exemplo, quer saúde da boa, mas não manifesta indignação colectiva com as diversas falhas no sector, a última das quais relacionada com atrasos no pagamento das despesas com transportes e alimentação dos doentes que são encaminhados para fora da Região. Desde quando a insensibilidade de quem não sabe definir prioridades legitima as diabruras do Estado mau pagador? Quer luzes da festa custe o que custar, mas nem olha preocupado para a montagem selvagem das iluminações no centro do Funchal. Em hora de ponta, entre peões e carros, descarregaram-se estruturas metálicas em total desrespeito pela segurança dos cidadãos. Desde quando a pressa é justificação para a ilegalidade? Quer uma cidade aprazível, mas todos os fins-de-semana é cúmplice das situações de transgressão que proliferam na capital madeirense, estacionamento abusivo que envergonha quem se gaba de saber receber. Podem faltar agentes e ser necessária polícia municipal, mas bem mais importante é haver civismo e cidadania que contribua para a qualidade de vida de quem cá vive e para a imagem de um destino que alia simpatia à urbanidade. Desde quando uma maior tolerância colectiva é alibi para a falta de educação individual?

Arrepia vê-los superiores conforme a maré, porventura bipolares, solidários com as fra(n)quezas dos pais mas prontos para ‘apedrejar’ sem dó as fragilidades das mães, de elogio fácil a quem parte mas que desprezaram em vida, sedentos em facilitar soluções aos desenrascados e a dificultar o futuro a quem errou. Momentos difíceis vivem por isso os que perderam o poder de compra, o conforto, os sonhos, o emprego, a casa, a família e os amigos e que, conscientemente, correndo o risco da humilhação fácil e da sátira social, fazem-se à vida como se fosse a última vez. Esses sim são superiores em tudo. Porventura terão mais alma e paz do que todos os calculistas que fingem felicidade, mas precisam de quem os tire da lama.

Ricardo Miguel Oliveira