A tribo do improviso

13 Ago 2017 / 02:00 H.

Fazer da Madeira zona de testes e usar os madeirenses como cobaias é apenas mais uma prova que a muito decisor local, ou candidato determinado em defraudar expectativas, falta mundo e lucidez, saber altruísta e noção do ridículo.

Andamos há anos a adiantar dinheiro para acedermos ao direito constitucional da continuidade territorial. Assumimos sem rodeios que a hipótese de cura para a doença que nos precipita para o desfecho inesperado está a hora e meia de avião e de umas boas centenas de euros. Admitimos sem vergonha que somos explorados e temos custo de vida mais caro do que a maioria dos portugueses. Improvisamos como se não houvesse amanhã e ninguém se revolta.

É louvável ter soluções capazes de resolver pontualmente problemas previsíveis e alguns dos quais recorrentes. Mas é sinal de fraqueza e desgoverno desresponsabilizar-se com eloquência mediática e não ter planos de contingência transversais quando o aeroporto não está operacional por causa do vento, quando a levadia nos deixa à deriva, ou quando as chamas nos queimam os sonhos.

É admirável escapar às críticas do Tribunal de Contas, sem preocupação de olhar para os efeitos perversos do fundamentalismo financeiro que não liberta verbas para o essencial. Mas de que serve ter dinheiro em caixa se faltam medicamentos no hospital, papel nas escolas, flores nos jardins, oportunidades de emprego e gente no Norte?

Se somos bons em contas e rigorosos na gestão da coisa pública, como é que se explica que a solidariedade, também ela refém da contabilidade, seja atraiçoada e que mais de metade dos donativos que generosamente foram entregues à Região na sequência dos incêndios de 2016 estejam por distribuir a quem precisa? Estarão os oportunistas à espera de brilhar com o dinheiro alheio na última quinzena de Setembro?

É elementar que nos poupem a desvarios e que não nos sirvam analgésicos enquanto acabam o reles serviço que causa dor e desespero. Para delapidar património, dar cabo da riqueza humana de um povo e ter noções básicas de como se destrói um país num ápice, basta olhar para a Venezuela.

O que a Madeira precisa é de visão competente sobre o que é decisivo para aqui sermos felizes. Tudo o resto é folclore, esse mesmo que habitualmente embrulha os momentos que podem ditar rupturas.

A campanha autárquica em torno da máxima ‘os meus são mais brancos do que os teus’, como se a eleição de 1 de Outubro fosse para a Ordem dos Dentistas, é reflexo inequívoco desse repentismo que faz a vida colectiva depender de palpites. E de contradições. Quem agora é vítima da alegada “perseguição política”, pelos vistos ancestral nesta terra, embora com a particularidade de ser mais vistosa quando estoira nas mãos de quem deu votos e palmas aos delinquentes, não pode estar à espera de compaixão eleitoral.

Ricardo Miguel Oliveira