A privatização do Governo

15 Out 2017 / 02:00 H.

Miguel Albuquerque respondeu de uma assentada às 20 perguntas que lhe colocamos há uma semana. De forma eloquente. Sem nos dirigir palavra. Sem qualquer tipo de pruridos. Em nome da “eficácia”.

Depois de pouco pensar em férias, dizem que atribuladas, decidiu mexer no seu governo, para deixar claro os verdadeiros propósitos da ‘Renovação’ ainda com poder, mas em agonia por não ter conseguido atingir propósitos eleitorais nas últimas autárquicas e por ver crescer fenómenos alternativos à sua estranha forma de sobreviver no espectro político regional. Estranha porque vende a matriz política aos lobbies sedentos de recompensa. Estranha porque é incoerente dispensar quem tanto se gaba ou promover quem se enxovalhou de forma grosseira. Estranha porque divide quando o propósito era unir.

Só agora é que o líder do PSD-M percebeu que a unidade que devia sustentá-lo tem défice de inclusão e que para além de Sérgio Marques devia ter chamado ao palco do executivo outras sensibilidades social-democratas?

Ao mexer, Albuquerque mostrou ao que vem. De olhos postos em 2019, já que lhe faltam armas para antecipar porventura em seu favor a decisão popular, dispensou quem denotou ter agenda própria e estar mal rodeado, mas também quem manifestou publicamente firmeza nas convicções, coragem para enfrentar três ou quatro grupos económicos viciados no facilitismo, capacidade de trabalho, domínio de dossiers e lógica de serviço público que por vezes rendeu humilhações. Deixa entender que agora o que fará a diferença é ser permeável aos interesses de quem tem arte e engenho para derramar a liquidez desejada por vários bolsos. Por isso, obrar é o lema.

A privatização do Governo deu-se sem que muitos dessem por isso. Nunca uma remodelação espelhou tão bem um modelo de governação, formalmente legitimada, mas factualmente comprometida com vontades e intenções que não são as colectivas, logo, questionável. O Turismo que bate recordes é o principal problema dos madeirenses? Foi Eduardo Jesus que prometeu o encalhado ferry eleitoralista? Terão que ser sempre os mesmos a ganhar empreitadas? A quem não dava jeito o rigor das Finanças?

Temos Presidente com pouco ou nada para fazer. Quem “coordena” politicamente é Pedro Calado, ainda por cima com um crédito de dois anos nas Finanças que são a sua praia, com algum calhau, e sabe-se a pedido de quem. Quem dá a cara pelas grandes opções do executivo é um ex-candidato a vereador, que terá como é óbvio rédea curta e ordem expressa para não complicar quem constrói. Quem assume a gestão dos assuntos parlamentares, que pelos vistos na orgânica engendrada não são políticos, é o secretário da Educação. Quem vai continuar a levar na cabeça pelos dramas vitais é o secretário da Saúde, pois o grande investimento no sector será no betão e no novo hospital e em projectos que não são da sua conta...

Quem ainda não se apercebeu que tome note. O líder efectivo do executivo madeirense não mora na Quinta Vigia. Tanto pode ser quem não aparece mas pressionou, como quem dá mais nas vistas, como o empresário, construtor e hoteleiro Avelino Farinha a quem o eleito faz as vontades, a maior das quais a inequívoca AFAbetização do XII Governo Regional, com um lema a fazer corar de vergonha aqueles que num passado recente foram copiosamente cilindrados por muito menos: Betonize-se e quem discordar, rua.

Tremendo que nem varas verdes, sem argumentos políticos, nem explicações fundamentadas, Albuquerque chamou quem quis sanear esquecendo-se que estes, se quiserem, fazem-lhe a folha em três tempos. Talvez não o façam pois já devem saber das cumplicidades negociadas e da predisposição dos acomodados em várias bancadas ao lugar que, pelo menos até 2019, rende notoriedade e uns trocos.

Na hora em que alguns se arriscam a deixar de contar para uma maioria sempre em sentido, quem apregoa a necessidade urgente de regeneração deveria ser consequente. Aliás, não deixa de ser sintomático que só o PS-M pondere apresentar uma moção de censura. De que estão à espera os que estão fartos de saber que perto de metade dos que votaram na ‘Renovação’ em 2015 mudariam hoje o seu sentido de voto?

Quanto ao Presidente, se não tem foco para o povo nem trabalha para o sucesso do PSD-M o que anda aqui a fazer? Pensa ganhar com estas evidências?

Ricardo Miguel Oliveira
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