A preocupante amnésia

“Andam a gozar com os madeirenses”. E estes, esquecidos, querem o melhor de dois mundos

16 Set 2018 / 02:00 H.

“Andam a gozar com os madeirenses”. A tardia sentença é assumida por Miguel Albuquerque. Tem toda a razão. A humilhação é constante. E são muitos os autores ou cúmplices do escárnio. Cá e lá. Com a agravante de haver insulares com culpas acrescidas no cartório. Por pequenez, desleixo e amnésia.

Ao ouvir o tema ‘Vida tão estranha’ de Rodrigo Leão, qualquer um dos lesados do gozo incessante não fica indiferente à certeza partilhada: “A gente vive na mentira; já não dá conta do que sente”. É assim nas recorrentes abordagens tresloucadas aos preços exorbitantes praticados pela TAP, legitimados pela liberalização aprovada em 2008, pelo modelo de subsídio social de mobilidade em vigor desde 2015 e pela manifesta incapacidade de atracção de uma terceira companhia aérea que opere na rota mais procurada. Mas também na surpreendente ausência de contestação a todos os custos insuportáveis ligados ao ensino superior e que limitam escolhas e atormentam sonhos, entre os quais as rendas obscenas cobradas aos universitários deslocados em Lisboa e Porto, talvez por não haver um só culpado à mão para espancar verbalmente.

Enxovalhar Antonoaldo Neves é fácil. Pôs-se a jeito. Primeiro numa entrevista. Depois na Assembleia da República. Mas mandá-lo para o sítio onde muitos madeirenses foram obrigados a estar, para além de básico, é inconsequente. O que muitos precisam é de libertação, de ajuda para sair do pântano e das jaulas. Mas quem lhes dá a mão? Os que passam o dia a destilar ódio nas redes sociais mas se rendem às migalhas que sobram do banquete contínuo do poder? Os incompetentes incapazes de construir soluções? Os que por falta de peso político dão mais palmadinhas no Costa do que murros na mesa? Os especialistas em ameaças ? Os masoquistas que, num mercado livre, até podem voar de avião para o continente na easyJet ou na Transavia ou numa outra companhia qualquer para destinos europeus, mas por causa das milhas e de outras comodidades preferem a TAP? Eleitos e eleitores estão obrigados a muito mais do que comentar assuntos que não dominam, a decretar boicotes sem nexo e a querer o melhor de dois mundos.

Fingem-se também esquecidos ou padecem de falta de memória os que se perdem nas objecções primárias a uma cidade que se quer cada vez com menos carros, como recomendam todos os planos de mobilidade urbana, mas que protestam com as requalificações que votaram ou legitimaram.

Todos querem turistas, pão nosso de cada dia, mas não são poucos os que os empurram para longe. Criando taxas em cima de taxas. Facilitando o desordenamento e a criminalidade. Revelando falta de bom senso.

O contexto global não contribui para a lucidez. O mundo que julgávamos adulto, torna-se cada vez menos recomendável. Porque intolerante, avesso à verdade, viciado não no essencial mas na futilidade, fixado no insulto ou na vitimização.

Um conceituado árbitro de ténis que se limita a cumprir regras, em vez de premiado, é logo acusado de ser sexista e racista e de ter nascido num país que só conhece a democracia há menos de 50 anos.

Chega de Serenas, de Antonoaldos e de outros presunçosos deste mundo, bem como de todos sonsos e dos marginais que nos colocam perante mais uma dúvida existencial. Gozar ou emigrar não pode ser a equação.

Ricardo Miguel Oliveira
Outras Notícias