A determinação dos calculistas

Muda a hora mas não os comportamentos. Até 2019, manda o cimento

29 Out 2017 / 02:00 H.

Desde Janeiro de 1976 até Setembro último foram vendidas nesta Região um total de mais de 11,2 milhões de toneladas de cimento. Leu bem. Na prática foram injectadas nesta terra 23 mil toneladas da dita matéria-prima em cada um dos 489 meses destes 40 anos e nove meses de Autonomia. Dá mais de 15 mil toneladas por cada um dos 741 Km2 que esta ilha tem de área. Representa mais de uma tonelada de cimento por ano a cada habitante. Está explicado porque é que temos túneis e viadutos às curvas!

Se acrescentarmos os valores exorbitantes gastos em areia, alcatrão e vigas, trabalhos a mais e concursos suspeitos, cada madeirense seria já dono de uma fortuna que hoje está na mão de meia-dúzia, os mesmos que agora prolongam o jogo interrompido, ao som de ‘oh tempo volta para trás’, com o beneplácito de uns quantos reféns do tacho e do salário confortável garantido até 2019.

Na próxima semana, à boleia da moção de censura ao governo ajardinado, os 47 parlamentares - que quase sempre se dividem entre a ternurenta defesa de um povo convencido que era superior e a venda de sifões, azulejos, lavatórios e bidés para os velhos edifícios da IHM, entre a representação dos delinquentes que o regime gerou ou o patrocínio daqueles que recorrem ao Tribunal para evitar o pagamento de impostos - são confrontados com a necessidade de se definirem. Em relação aos negócios que vão legitimar, aos esquemas que ainda nem deram conta, aos sonhos que, entre muito betão, incluem a desejada ampliação do porto do Funchal. E assim, independentemente da forma como votarem, tudo ficará bem mais transparente.

Muitos dos deputados com assento no asilo da política madeirense têm nova oportunidade para mostrar quem são. Para, pelo menos uma vez no mandato, serem coerentes com as enormidades que segredam sempre que se libertam. Para serem consequentes. Para fazerem história. Que tipo de gente é esta que se entusiasma com as obras e dividendos mas que não investe nas pessoas, usa fórmulas falidas, deixa morrer os seus doentes oncológicos, improvisa talas, abandona os idosos, é permissiva sempre que a violência doméstica se agiganta, tolera o tráfico e ignora a fome vizinha?

Este buraco parece não ter fundo. Mas um dia nem o cimento lhes valerá. Basta que os calculistas saiam de cena, se for preciso por via da intervenção enérgica dos inconformados que resistirem a uma mais do que provável nova falência, a um novo plano de ajustamento económico e financeiro, a um novo sufoco.

Ricardo Miguel Oliveira