A cerca das aparências

Há no PSD-M um golpe palaciano em curso para derrubar Albuquerque

22 Jul 2018 / 02:00 H.

A política de fachada é hoje o refúgio daqueles que receberam o poder de bandeja ou que com ele se arriscam a ficar sem grande esforço.

As aparências valem bem mais do que as competências e enquanto assim for devemos temer pelo futuro. Tanto mais que o vazio tende a ser transversal. Nuns casos, por manifesta ignorância atrevida. Noutros, por erros de cálculo. Em ambos, por deslumbramento. É por isso que na Madeira o importante não é ser decisivo na vida colectiva, como felizmente alguns ainda tentam ser em vários sectores produtivos, mas sim fazer folclore político com tudo o que é impasse, redundância e supérfluo.

Mais importante do que a etiqueta e protocolo, é haver soluções para os problemas comuns, certezas nas opções tomadas e sentido de justiça. Não ter pactos com a corrupção, respeitar a diversidade e contribuir para a dignificação do exercício dos cargos públicos. Ser honesto, transparente e altruísta.

Se Emanuel Câmara deve às boas maneiras ou se Miguel Albuquerque faz discursos que dão sono o problema é deles, atitudes que se resolvem sem ser preciso voltar à escola. O povo sabe como se faz. Contudo, fica claro que partidos e políticos que se preocupam apenas com a montra, mais cedo ou mais tarde terão problemas logísticos.

Por exemplo, o Conselho Regional do PSD-M reuniu ontem, não para emendar comportamentos desviantes ou traçar rumos consistentes tendo em vista a hipótese de conquistar um novo mandato, mas apenas para confirmar que o alegado “cerco” da República à Região é o único alibi possível a usar numa campanha permanente por todos quantos, contorcionistas e sempre em pé, espatifaram em poucos meses a confiança do eleitorado, a credibilidade apregoada e milhões de euros.

A desculpa fácil para muita e complicada asneira local espelha o estado de um partido incapaz de fazer ‘mea culpa’ pelas atrocidades de que é cúmplice. Alguém ousou denunciar o golpe palaciano em curso, com o objectivo de afastar Albuquerque do próximo confronto político, expediente comprovadamente cozinhado com a benção dos pretensos donos disto tudo, sobretudo os que temem perder palco, margens, benesses e contratos? Houve repreensão severa aos deputados que em pleno debate parlamentar, não acatam ordens do Presidente da ALM e desrespeitam os colegas da própria bancada, ou aqueles que durante os plenários vão para as redes sociais atentar contra o bom nome de pessoas e instituições em vez de estarem concentrados na sua missão? Alguém de bom senso pediu punição exemplar para os que lesam estratégias previamente definidas e o amuo de um dos membros da direcção do grupo parlamentar que, recentemente, abandonou o plenário no dia em que tinha a seu cargo a defesa de um dossier em discussão?

Se a maioria quiser continuar a mandar deve ajustar a mira, ouvindo as bases, respeitando quem tem opinião própria, - que é um bem cada vez mais escasso -, e elevando o nível para poder sair da deriva. Insistir no “cerco” sem dar conta da culpa que fez erguer a vistosa cerca insular é como cair no remoinho.

Ricardo Miguel Oliveira
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