A alienação da Igreja e os gritos
de Costa e Albuquerque

25 Fev 2018 / 02:00 H.

Os números são retumbantes. Em Portugal há, segundo as contas do Vaticano, 9 milhões 183 católicos, numa população de 10,34 milhões de almas. Não sei como é feita a contabilidade da Santa Sé mas não me surpreende que exista de facto tal número, mais coisa menos coisa. O que tem diminuído, isso sim, é o número de padres. Há efectivamente uma crise de vocações na Igreja Católica.

Na Madeira a percentagem de católicos é também esmagadora face a outros credos religiosos. Numa terra com mais igrejas do que sacerdotes poucos questionam – mesmo os que pelo baptismo têm essa obrigação – o caminho que instituição trilha. Por cá pouco se diz e muito menos de discute. Os padres (a indiscutível maioria) fecham-se em copas e em “reflexões internas” e do Paço Episcopal só e apenas são conhecidas as notas publicadas no site da Diocese e as homilias do Bispo. Sobre a actualidade, sobre questões prementes e determinantes para as pessoas, para os cristões, zero. A Igreja por cá continua a ser uma ‘fortaleza’ a que muito poucos têm acesso. A Igreja aberta, de encontro com os fracos e desprotegidos, preconizada pelo Papa Francisco, faz pouca militância por estas bandas. Aqui continua a reger-se pela pauta antiga. A instituição Igreja na Região é acomodada, não é proactiva. Raramente se pronuncia sobre os temas mundanos que preocupam os fiéis, o colectivo. É uma organização fechada sobre si própria, que tenta passar por entre os pingos da chuva, não se comprometendo. Falta-lhe chama e carisma e um pastor (bispo) determinado e corajoso.

Recentemente D. Manuel Clemente causou polémica ao aconselhar os casais ‘recasados’ (?) a abster-se de ter relações sexuais. As palavras do Bispo de Lisboa encheram jornais e motivou debates, de onde saíram críticas fundadas ao que se considerou ser uma posição irrealista, ridícula e infantil. Padres vieram a público contestar a posição do patriarca, de forma livre e esclarecida, promovendo a discussão, contribuindo para ela. Na Madeira não existe a tradição de falar, de debater, de esclarecer, muito menos de comentar. A haver conversas é longe da comunicação social. A grande maioria dos membros do clero vive arredada do seu meio e não se quer comprometer com declarações públicas que podem ser sempre mal interpretadas na câmara eclesiástica.

Era saudável que a nossa Igreja falasse a linguagem pragmática para o povo cristão. Que agisse e se pronunciasse sobre os desafios dos nossos dias, que fosse mais terrena, menos cerimonial e opaca. A alienação em que vive principalmente a sua cúpula não se coaduna com o nosso tempo e muito menos com a acção do actual Papa.

Miguel Albuquerque passou a semana a zurzir em António Costa. Custa-lhe digerir o raspanete telefónico do primeiro-ministro por causa das contas da Região.

Um primeiro-ministro pouco hábil em matéria de contabilidade fez considerações exageradas e irrealistas sobre uma região do país governada pelo PSD.

Esclarecida a situação caberia a Costa emendar a mão publicamente, porque as suas críticas, duras, foram também produzidas publicamente, na Assembleia da República.

Não interessa a ninguém, muito menos à Região, alimentar contenciosos com a República. Não interessa saber quem consegue gritar mais alto. Interessa, sim, resolver os dossiers pendentes a bem da população. Que tanto um lado como outro saiba discernir entre o que são as questões do Estado, institucionais, e o que são as questões de índole partidária. Todos sabemos que já foi dado o pontapé de partida das eleições de 2019, mas até lá há assuntos fundamentais que têm de ser solucionados. Isso é o que de facto importa. O resto é ruído e entretenimento.

Roberto Ferreira
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