2017 vs 2018

Acaba um e começa o outro e aqui fica o meu desejo político: que o governo governe

02 Jan 2018 / 02:00 H.

1. Livro do Ano: “Homo Deus” de Yuval Noah Harari. Porque a inteligência se está a separar da consciência, o homem descobrirá o que tem de divino. A humanidade como a conhecemos a deixar de o ser. Livro de leitura obrigatória.

2. Disco do Ano: “Sleep Well Beast” dos The National. São imperdíveis. Há nos The National uma envolvência de drama, de tragédia eminente. Não sei se é o disco do ano, mas é certamente o que mais ouvi em 2017.

3. “Whataboutismo” da semana: epá e tal e vão ao supermercado e compram coisas para um peditório e depois no resto do dia não pensam nos que passam fome e coisa e o carrinho do supermercado tem falta de óleo nas rodas e o queijo que cheira a chulé aumentou de preço e se há gente a passar fome na Síria também as há no Tchipigumbondo. O melhor era ficarem em casa.

Epá e tal e vão à Missa do Parto e depois no resto do dia já não ligam a Deus e coisa e o menino Jesus nas palhinhas e a Mãe dele e é só naquele bocadinho que se dão à religião. O melhor era ficarem em casa.

4. 2017 chegou ao fim. Um ano cheio de muita coisa e de mãos cheias de nada. Deixo-vos com uma série de coisas em jeito de recordação: novela José Sócrates; Catalunha; o medir de pilas entre Donald Trump e Kim Jong-un; Cristiano Ronaldo; tragédia no Monte; Websummit e jantar no Panteão Nacional; Centeno eleito Mr. Eurogrupo; 9 países europeus têm governos liberais; eleição de Macron; Raríssimas; “no passa nada” com o Ferry, com a Mobilidade e afins; eleições em Angola, João Lourenço é o novo presidente; Passos Coelho não é recandidato; Rio ou Santana, um deles é o senhor que se segue; ISIS, Síria, Iraque; Papa em Fátima; armas roubadas em Tancos aparecem na Chamusca e ninguém é preso; nos livros há-os “Pró Menino e Prá Menina”; Agência Europeia do Medicamento “out of Oporto”, INFARMED está “in”; grande exposição de arte flamenga na Madeira marca início das comemorações dos 600 anos... em Lisboa; autárquicas; Portugal sai do rating lixo, a economia cresce, a dívida baixa, o défice controlado.

5. Passei quase um ano à espera. Recostei-me e aguardei que Trump mandasse prender Hillary, que nos contasse a verdade sobre os OVNIs, sobre civilizações antigas de homens gigantes, sobre os gajos que às escondidas mandam nisto tudo, que o Elvis está vivo, que as vacinas são um negócio e não servem para nada a não ser transformar as nossas crianças em autistas, que os rastos nos céus são produtos químicos lançados por aviões, que o Putin é um grande democrata e um gajo porreiro, que há pirâmides na Antártida e ao largo dos Açores, que a Atlântida era na Madeira, que o Alberto João Jardim era o palhaço Rico, que a Teresa Guilherme é um travesti, o Carlos Cruz ministro da juventude e o José Sócrates prémio Nobel. É que eu tenho amigos que acreditam nisto tudo, ou quase. Que se pelam por uma bela de uma teoria da conspiração. Pessoas cultas e inteligentes que fora destas conspiralites conseguem ter excelentes conversas e bem fundamentadas. Mas de repente salta-lhes um disjuntor “et le voilá” que aqui vai disto...

6. Agora que estamos na ponta final da Festa, desculpem-me a presunção, mas tenho para mim que faço o que posso para ajudar o que é nosso. Sou um fruidor de cultura madeirense, como (agora não tanto) produtos produzidos na região e bebo dos nossos belos néctares havendo sempre lá em casa Terras do Avô Branco - Grande Escolha, que é para mim um dos grandes brancos que se podem beber. Nesta altura compro sempre uma barriga de porco a um amigo para a minha vinha-d’alhos, as broas e o bolo-de-mel a uma senhora que os faz em casa, confecciono as minhas cebolinhas de escabeche e os meus picles em mostarda. Não o conseguindo sempre, podendo, gosto de comprar directamente ao produtor. Em suma faço o que posso e sempre que possível para consumir produtos regionais em diferentes valências. Se fizéssemos todos o mesmo estaríamos bem melhor.

7. Marcelo foi operado a uma hérnia no umbigo. Por acaso, e se pensar um pouco, até acho que Marcelo, hérnia e umbigo têm tudo a ver.

8. E para acabar o ano nada melhor que a aprovação às escondidas de uma nova lei de apoio aos partidos políticos votada favoravelmente pelo PS, PSD, PCP, BE e PEV. São muitas as questões que se levantam, mas não os maço muito. Expliquem-me só uma coisa simples: até agora havia um tecto limite para aquilo que os partidos podiam encaixar como contribuição total de privados: 600 e tal mil euros. Dizia a lei que o que ficasse acima desse limite deveria ser dado ao estado.

Agora a questão: se até hoje, e depois de todos estes anos de democracia, nenhum partido devolveu um cêntimo que seja ao estado para que é que querem acabar com o limite se nunca o atingiram?

9. O Bloco de Esquerda apressou-se a dizer que não concorda com a nova Lei de Financiamento dos Partidos.

Depois veio o PCP fazer saber que a nova lei é “absurda, antidemocrática e inconstitucional”.

Dos candidatos à liderança do PSD, Santana não gostou do que leu e Rio está contra a questão do IVA.

MILAGRE: a nova lei foi aprovada pelo Divino Espírito Santo.

10. Permitam-me que abusivamente aproveite este espaço para agradecer do fundo do coração todo o apoio que tantos me deram ao longo da São Silvestre do passado dia 28. Foi fantástico. Fiquei em penúltimo entre os homens pois não reparei que tinha ficado um para trás. Mas cheguei ao fim que era o meu objectivo. Para quem há oito meses nem 100 metros andava porque não conseguia... Bem hajam!!!!

11. Acaba um e começa o outro e aqui fica o meu desejo político: que o governo governe. Que deixe de ser titubeante, que não se adie mais uma vez, e se resolva, a questão do ferry, que o apoio às viagens aéreas dos madeirenses seja fácil, controlado e desburocratizado e que haja tomates para entender que autonomia é aquilo que nós quisermos que ela seja. Que de uma vez por todas se perceba que ser “autonomia” é muito, mas muito mais do que ser “região”!

12. E agora 2018. Um ano fresquinho e sem vícios acabado de começar. Prontinho para ser estragado.

Que seja um grande ano para todos.

Nuno Morna

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