Voos de Londres para a Irlanda quase esgotados por causa do referendo sobre o aborto

24 Mai 2018 / 10:36 H.

Restam poucos lugares e a preços proibitivos nos voos de Londres com destino à Irlanda entre hoje e sexta-feira, prova do empenho de muitos expatriados irlandeses em votarem no referendo que pode por fim à proibição do aborto.

É o caso de Karen Fahy, professora de química e biologia numa escola secundária em Luton, nos arredores de Londres, que vai a correr para o aeroporto após o fim das aulas na sexta-feira, dia do referendo.

“Acabamos a escola às 15:35 e consegui um voo às 17:30, o que me deve por em casa mesmo à tangente, antes das mesas eleitorais fecharem”, às 22:00, afirmou à agência Lusa.

Fahy faz questão de viajar até Galway, no oeste do país, para votar pela continuidade do artigo 40.3.3°, conhecido por Oitava Emenda, da constituição irlandesa, que dá igual direito à vida ao feto e à mãe.

“Eu tenho um primo com síndrome de Down. Como moro no Reino Unido, conheço as estatísticas sobre o aborto e como os bebés com deficiências são discriminados: 90% dos fetos com Síndrome de Down acabam por não nascer, o aborto é visto quase como a única opção quando é feito esse diagnóstico”, refere.

A jovem de 26 anos admite que uma criança com este problema “pode precisar de um pouco mais de ajuda e pode ser mais lento a desenvolver-se do que crianças da mesma idade, mas isso não significa que a sua vida valha menos”.

Fahy é uma ativista do movimento London Irish United for Life, que está a fazer campanha para que os irlandeses que se opõem à legalização do aborto vão votar no referendo de sexta-feira.

Existem movimentos de expatriados a favor da revogação da Oitava Emenda e da proposta de lei do governo que prevê viabilizar o aborto até às 12 semanas de gravidez em qualquer circunstância, como o London-Irish Abortion Rights Campaign.

A redução da diferença das intenções de voto nas sondagens torna o voto dos muitos irlandeses que vivem no Reino Unido ou no resto da Europa ainda mais significativo.

Muitos têm aderido ao movimento “#hometovote” [voltar a casa para votar] nas redes sociais.

A mais recente consulta publicada pelo diário Irish Times na semana passada indicava que há menos eleitores que pretendem votar “Sim” à revogação: 44%, menos três pontos percentuais do que em abril, contra 32% pelo “Não”, que beneficiaram de uma subida de quatro pontos.

Mas 24% da população continua indecisa ou pouco mobilizada e quase metade considera que o governo está a ir “longe demais”, incluindo muitos que querem mudar a Constituição.

De certa forma, este referendo é mais um teste à identidade e aos valores da sociedade irlandesa, durante décadas profundamente católica e conservadora, mas que gradualmente se tem tornado mais secular e liberal.

“É tema de conversa na sala dos professores na minha escola, e é um tema de discussão acesa à mesa na Irlanda. Concordem ou discordem, consegui ter discussões civilizadas em que ouvimos os argumentos de cada um. Infelizmente, é algo que tem faltado em ambos os lados da campanha”, admite Fahy à Lusa.

Com os partidos e as igrejas em segundo plano, as campanhas têm sido conduzidas sobretudo pela sociedade civil e produzido debates televisivos bastante animados.

Católicos, cristãos protestantes e muçulmanos são contra, os dois maiores partidos do país, Fine Gael e Fianna Fáil, deram liberdade de voto, enquanto o Sinn Féin e o Labour se declararam a favor da alteração constitucional para pôr fim à proibição do aborto.

Embora se tenha recusado a participar em debates, o primeiro-ministro, Leo Varadkar, lançou um vídeo pelo “Sim” e deu entrevistas em que apresentou os seus argumentos a favor da revogação da Oitava Emenda.

“Nove mulheres viajam todos os dias [para abortar no estrangeiro]. E cada vez mais mulheres usam pílulas abortivas, o que não é seguro”, sublinhou.

A campanha pelo “Sim” recebeu outros apoios de peso, como a atriz recentemente nomeada para um Óscar Saoirse Ronan, e os atores Aidan Turner e Cillian Murphy, todos bem-sucedidos fora da Irlanda.

Porém, o receio de uma influência excessiva de organizações ou agentes estrangeiros neste referendo levou a Google e o Facebook a limitar a propaganda nas suas plataformas.

Outras Notícias