UNESCO, a guardiã do património cultural mundial

13 Out 2017 / 05:20 H.

Os Estados Unidos anunciaram hoje que iam retirar-se da UNESCO, mas a decisão não é inédita, uma vez que o país já deixou no passado esta agência da ONU que é encarada como a guardiã do património cultural mundial.

Em 1984, em plena Presidência de Ronald Reagan, os Estados Unidos deixaram a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), alegando a incapacidade e os excessos orçamentais da agência.

O país só regressaria à organização em 2003, já sob a Presidência de George W. Bush.

Catorze anos depois, Washington voltou a anunciar a saída da UNESCO, desta vez acusando a instituição de ser “anti-israelita”.

O país, cuja saída só terá efeito a partir do dia 31 de dezembro de 2018 (segundo indicação do Departamento de Estado norte-americano), pretende ficar com “um estatuto de observador”.

Poucas horas depois do anúncio norte-americano, Israel também divulgava a sua saída.

Numa nota do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Israel afirmou que a UNESCO “tornou-se um teatro do absurdo, onde se deforma a história em vez de a preservar”.

Em novembro de 2013, a UNESCO indicou que os Estados Unidos e Israel tinham perdido o seu direito de voto, após terem falhado o pagamento da contribuição financeira à organização.

Washington e Telavive deixaram de pagar as contribuições financeiras para UNESCO depois de a Palestina ter sido admitida como membro a 31 de outubro de 2011.

Na altura, a Palestina tornou-se no 195.º membro da UNESCO.

Em julho passado, os dois países já tinham advertido que estavam a reavaliar a sua ligação à UNESCO, por causa da decisão da organização de inserir a cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, na lista de património mundial e em risco.

Com 195 estados-membros e oito membros-associados, a agência da ONU tem um objetivo ambicioso: “Construir a paz no espírito dos homens através da educação, ciência, cultura e comunicação”.

A UNESCO é sobretudo conhecida pelos seus programas educativos e pela elaboração da lista de património mundial cultural e natural.

A lista, que está em constante evolução, inclui 832 locais culturais classificados e 206 locais naturais, repartidos por 167 Estados, incluindo Portugal.

O anúncio da saída dos Estados Unidos e de Israel surge numa altura em que o conselho executivo da organização vai eleger, esta semana, o seu próximo diretor-geral, o nome que vai suceder à búlgara Irina Bokova, que completa dois mandatos marcados por divergências políticas e dificuldades financeiras da organização.

Após a realização de três votações, na quarta-feira, os candidatos do Qatar, Hamad bin Abdoulaziz Al-Kawari, e de França, Audrey Azoulay, estavam na liderança dos votos e empatados.

A organização, que tem sede em Paris e conta atualmente com mais de 50 escritórios e vários institutos e centros em todo o mundo, foi precedida pela ICIC (Comissão Internacional para a Cooperação Intelectual), criada em 1921 no âmbito da Sociedade das Nações (a organização que antecedeu as Nações Unidas).

Participaram nessa comissão várias figuras de renome como Henri Bergson, Albert Einstein, Marie Curie, Thomas Mann ou Bela Bartok.

A UNESCO como a conhecemos foi fundada em 1945, no momento da criação das Nações Unidas. A sua constituição foi ratificada a 04 de novembro de 1946 por 20 países.

O período da Guerra Fria ou o processo de descolonização tiveram impacto na UNESCO.

A antiga União Soviética só se tornou membro em 1954.

Em 1956, a África do Sul considerou que a UNESCO tinha interferido nos “problemas raciais” do país e anunciou a sua saída da organização. Só voltaria com a Presidência de Nelson Mandela, histórico resistente ao apartheid (regime de segregação) sul-africano, em 1994.

Portugal aderiu à UNESCO em 1965, retirou-se da organização internacional em 1972 e reingressou em 11 de setembro de 1974.