Um ano após Acordo de Paris batem-se recordes de emissões de gases

03 Nov 2017 / 04:35 H.

Um ano após entrar em vigor o “histórico” Acordo de Paris, classificado como uma “apólice de seguro para o planeta”, batem-se recordes de concentração de dióxido de carbono na atmosfera e é “catastrófica” a distância entre promessas e realidade.

O Acordo de Paris foi aprovado a 12 de dezembro de 2015 e entrou em vigor a 04 de novembro do ano passado. Foi “histórico” porque juntou na capital francesa praticamente o planeta inteiro, comprometido em limitar o aumento da temperatura média global abaixo dos dois graus acima dos níveis pré-industriais e em tentar chegar aos 1,5 graus celsius.

Nesse dia “histórico” definiu-se que o Acordo entrava em vigor 30 dias após o momento em que países representando pelo menos 55% das emissões de gases com efeito de estufa ratificassem o documento. E o planeta rejubilou quando tal aconteceu a 04 de novembro do ano passado.

Um ano antes, o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tinha classificado o acordo sobre o clima como “uma apólice de seguro para o planeta”, que poderia beneficiar “toda a humanidade nas futuras gerações”, e disse que os países adotaram uma “decisão histórica”.

Na verdade, 195 países assinarem um documento vinculativo a comprometerem-se a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa nunca tinha acontecido. Tinha havido antes o Protocolo de Quioto, em 1997, com metas específicas para quatro dezenas de países, que decorrera de outra reunião à escala global, cinco anos antes, no Rio de Janeiro.

Nada comparável ao Acordo de Paris. Assinaram-no grandes e pequenos países, grandes e pequenos poluidores. Assinaram-no a China e os Estados Unidos, os dois países mais poluidores do mundo. O então Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama falou de um acordo universal “enorme”, a União Europeia falou de marco histórico que “dá esperança e futuro”, e “histórico” foi também a palavra usada pelas principais organizações não-governamentais ligadas ao ambiente.

Depois de tantos elogios, depois da adesão de grandes países poluidores como a Rússia, a Índia ou o Japão, o Brasil ou a Alemanha, o acordo foi ratificado e entrou em vigor muito rapidamente, faz no sábado um ano.

E depois o primeiro grande abalo no Acordo, com o anúncio pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretendia abandonar o acordo, juntando-se à Síria, que nunca chegou a assinar, e à Nicarágua, que também não o fez e disse, pela voz do ministro das Políticas Nacionais, Paul Oquist, que o Acordo não é suficiente para evitar uma catástrofe global no futuro.

Desde que o documento entrou em vigor foram já vários os estudos que o colocam totalmente em causa. Um deles, publicado na revista Science Advances, diz que pode ser perigoso viver no sul da Ásia devido aos aumentos de temperaturas, e especialistas australianos dizem que as temperaturas globais podem subir 1,5 graus em menos de uma década, um cenário nunca previsto no Acordo.

E se o Acordo considera possível evitar o aumento de dois graus até final do século, e limitá-lo mesmo a 1,5 graus acima dos valores médios da era pré-industrial, um estudo da Universidade de Washington veio dizer que um aumento de dois graus era um bom cenário, porque o provável é que aumente o dobro.

A realidade, um ano depois da entrada em vigor do “histórico” Acordo, é que foi batido o recorde de concentrações de dióxido de carbono na atmosfera em 2016, segundo dados divulgados na segunda-feira pela Organização Mundial de Meteorologia, das Nações Unidas, que alerta para uma possível “subida perigosa da temperatura”.

E na terça-feira outro alerta da ONU, pela voz do responsável do Ambiente: é “catastrófica” a distância entre a realidade e as promessas dos países de limitar a emissão de gases e as reduções necessárias para manter o aquecimento abaixo dos dois graus.

Os compromissos dos Estados, disse Erik Solheim cobrem apenas um terço das reduções de emissões, estando longe do “necessário” preconizado pelo Acordo.

A ideia do Acordo era descarbonizar as economias mundiais, limitando o aumento das temperaturas a menos de dois graus até final do século para combater os riscos criados pelas alterações climáticas. Na segunda metade do século os combustíveis fósseis deveriam fazer parte da história.

A maior parte dos países já ratificou o documento mas tal nada significa. Palavras do diretor de meteorologia e geofísica do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Pedro Viterbo: Fez-se um texto para dizer “estamos mal, mas iremos no bom caminho, na verdade, quase dois anos depois, estamos no caminho que estávamos antes”.

A oito anos da primeira revisão do Acordo, com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU a dizer que para se limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus as reduções de emissões até meados do século teriam de ser entre 70% a 95%, batem-se recordes mas não é de redução de emissões.

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