Os quatro favoritos às eleições de domingo em França

20 Abr 2017 / 09:26 H.

Emmanuel Macron, o candidato liberal pela renovação do sistema

Emmanuel Macron lançou-se na corrida presidencial francesa projetando a imagem de um político novo e descomprometido, “nem de direita nem de esquerda”, disposto a renovar a lógica prevalecente, e tornou-se no favorito para derrotar a candidata da extrema-direita.

Macron, 39 anos, nunca foi eleito e demitiu-se do cargo de ministro da Economia (2014-2016) do governo do presidente François Hollande para apresentar a candidatura.

Com a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, a liderar inequivocamente as sondagens, Macron beneficiou do apoio de importantes figuras da esquerda, como o histórico François Bayrou, e da queda de popularidade do candidato da direita, François Fillon, envolvido num escândalo de alegado uso indevido de fundos públicos.

A imprensa francesa qualifica-o de “puro produto da intelectualidade”: filho de um casal de médicos, saído das escolas de elite e banqueiro de investimentos, até entrar na política em 2012 como conselheiro de Hollande.

Dessa experiência, e da de ministro, Macron diz ter retirado um ensinamento central: o da disfunção do sistema político.

Disse-se candidato da “verdadeira indignação” e da renovação, face “às mesmas caras” da classe política “há 30 anos”: “Isto não pode continuar assim!”.

Nas palavras de Hollande, numa reunião recente, “Macron teve a intuição, precisamente porque estava fora da vida política tradicional, que os partidos de governo criaram as suas próprias fraquezas, perderam atratividade e estavam [...] desgastados, cansados e envelhecidos”.

Essa intuição levou o jovem ministro a fundar, em abril de 2016, o seu próprio movimento, “Em Marche!”, com as suas iniciais -- EM -- que reivindica 200.000 militantes.

O programa com que se candidata é de inspiração social-liberal, prometendo reconciliar “liberdade e proteção”, reformar o subsídio de desemprego, criar apoios especiais para os jovens de bairros desfavorecidos e “olhar para a classe média”, “esquecida pela direita e pela esquerda”.

Europeísta “assumido” mas com pouca experiência internacional, tentou reforçar esta vertente com uma visita ao Líbano e outra a Berlim, onde se reuniu com a chanceler alemã, Angela Merkel, junto de quem suscita, segundo a imprensa, “interesse e simpatia”.

O seu discurso, politicamente transversal, agrada sobretudo aos jovens urbanos e aos empresários, mas não é popular junto das classes populares, sobretudo rurais, pela globalização que defende.

Contrariamente aos outros candidatos, Macron expõs na campanha a vida privada, aparecendo frequentemente com a mulher, Brigitte, 24 anos mais velha e sua antiga professora. A opção por essa exposição pode ter decorrido do desmentido que fez de rumores lançados nas redes sociais de que seria homossexual.

A primeira volta das presidenciais de França realiza-se no domingo, 23 de abril. Os dois candidatos mais votados disputam uma segunda volta, marcada para 07 de maio.

Jean-Luc Mélenchon, a figura central da esquerda

Jean-Luc Mélenchon, candidato da esquerda às presidenciais, perfila-se nas sondagens como terceiro mais votado, confirmando-se como figura central da esquerda francesa, apesar de 30 anos de carreira política no Partido Socialista.

Com o lema de campanha “A França Insubmissa”, Mélenchon, um orador inflamado que promete defender o povo contra a oligarquia, é identificado por muitos dos que não partilham as suas posições com a “esquerda radical populista” de um grego Syriza ou um espanhol Podemos.

As sondagens colocam-no no terceiro lugar, com uma pequena vantagem sobre o candidato da direita, François Fillon, e atrás dos dois favoritos, a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, e o candidato independente liberal, Emmanuel Macron.

Filósofo de formação, admirador do revolucionário francês Robespierre e da esquerda latino-americana personificada por Hugo Chávez, Mélenchon, 65 anos, mantém o radicalismo, mas abandonou o discurso violento de outrora e abraçou o humor e os “soundbytes”.

“Estou mais filósofo que nunca, menos impetuoso. A conflitualidade mostrou os seus limites. Mas não se pode propor o que proponho com cara de primeira comunhão e voz flautada. Às vezes não há alternativa, é preciso abrir as portas a pontapé”, disse recentemente.

O estilo é-lhe proveitoso na internet: o seu canal no YouTube é o mais visto dos políticos franceses e no Twitter tem um milhão de seguidores, meios que Mélenchon defende como imprescindíveis para passar a sua mensagem sem a filtragem dos ‘media’, com os quais mantém péssimas relações.

Nos comícios, o seu discurso consegue prender a atenção da audiência, mesmo quando recorre a um holograma para aparecer em diferentes eventos simultaneamente -- a 18 de abril chegou a aparecer em sete ações de propaganda simultâneas, incluindo a Ilha de Reunião, no Pacífico.

Nascido em Marrocos, passou pelo militantismo estudantil e entrou para o Partido Socialista com 25 anos. Eleito deputado pelo subúrbio parisiense de Essone, integrou um governo entre 2000 e 2002, como ministro delegado do Ensino Superior.

Em 2004 foi um dos rostos do PS que fez campanha pelo “não” à Constituição Europeia, contra a postura oficial do partido. Foi nessa altura, contou mais tarde, que se apercebeu da sua capacidade para convencer as massas e do que o distanciava do “partido de notáveis” em que militava desde 1976.

Trinta anos depois, em conflito com o PS, abandonou o partido em 2008 e criou o Partido de Esquerda. Forjou uma aliança com o Partido Comunista e candidatou-se às presidenciais de 2012, obtendo 11,1% dos votos na primeira volta e tornando-se um figura central da esquerda.

Mas, nas legislativas que se realizaram pouco tempo depois, o seu movimento ficou muito aquém do esperado, depois de contestar no seu próprio terreno Marine Le Pen, com quem disputa o eleitorado popular.

Marine Le Pen, a herdeira que mudou a face da Frente Nacional

Marine Le Pen passou anos a distanciar-se do discurso mais radical do pai para conquistar o eleitorado que já lhe permitiu vencer eleições e pode dar-lhe nas presidenciais a vitória que Jean-Marie Le Pen não conseguiu.

Confortada com os resultados da Frente Nacional nas europeias de 2014 e nas regionais de 2015, em que foi o partido mais votado, com 25% e 28%, Le Pen, 48 anos, quer contradizer as sondagens que lhe dão a vitória na primeira volta e a derrota na segunda.

O pai, candidato à presidência em 2002, passou à segunda volta com apenas menos três pontos percentuais que Jacques Chirac, mas acabou batido pelo histórico político de direita, por 82,2% contra 17,7%.

A filha trava agora a segunda batalha pela presidência, depois de em 2012 ficar em terceiro na primeira volta, com 17,7%, mas conta agora com um eleitorado mais consolidado e mais amplo e um panorama político partidário mais fragmentado.

A fidelidade do seu eleitorado vai ao ponto de não se deixar afetar pelas acusações de financiamento ilegal do partido e as respetivas sanções e pedidos de levantamento da imunidade pelo Parlamento Europeu que marcaram a presente campanha.

Programa e discurso distanciam-se das referências ao Holocausto que levaram o pai a tribunal, depois de, ao assumir a liderança do partido em 2011, ter afastado os dirigentes mais alinhados com o discurso mais radical, antissemita, saudosista da colonização e do colaboracionismo.

Formou uma nova “guarda pretoriana” mais jovem, na qual se destacam o marido, Louis Aliot, e o seu braço direito, Florien Philippot.

Nesta campanha, Le Pen capitalizou a frustração manifestada por muitos franceses com o desemprego, a imigração ou a insegurança, assim como o “patriotismo” económico, que se tornou o seu tema preferido na campanha, com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos como exemplo.

Propõe a saída do euro, a taxação das importações, a suspensão dos acordos de livre circulação Schengen, a expulsão dos estrangeiros radicalizados.

“Se tivesse de me definir, diria muito simplesmente que sou intensamente, orgulhosamente, fielmente e evidentemente francesa. Sinto os insultos a França como se me fossem dirigidos diretamente”, afirma num vídeo de propaganda.

Palavras como estas são aplaudidas e repetidas pelos apoiantes, mas Le Pen foi recebida com protestos em comícios em Lille (norte), Ajaccio (Córsega) e Nantes (oeste).

François Fillon, o candidato marcado pela polémica

O candidato da direita às presidenciais francesas, François Fillon, começou a campanha em alta com uma imagem de honestidade e rigor, mas sucessivas polémicas acabaram com a possibilidade de passar à segunda volta, como ditavam as primeiras sondagens.

“Sou como aqueles combatentes marcados [...] que não baixam a cabeça diante das balas”, disse no fim de semana da Páscoa o ex-primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy, 63 anos, candidato pelo partido Os Republicanos (ex-União para um Movimento Popular, UMP, direita).

As acusações de que é alvo, repetiu, são “uma maquinação”, um “escândalo democrático” e um “confisco da eleição”.

Fillon venceu Sarkozy e o também ex-primeiro-ministro Alain Juppé nas primárias do partido, em novembro passado, e rapidamente surgiu nas sondagens como favorito para derrotar a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, na segunda volta.

A imagem de pessoa íntegra, fiel aos valores tradicionais, e a promessa de recuperação económica através de cortes orçamentais e de uma luta sem quartel contra a corrupção agradaram ao um eleitorado, depois de cinco anos de governo socialista.

Mas, em finais de janeiro, um escândalo revelou-se desastroso para a popularidade do candidato da direita.

O semanário satírico Le Canard Enchaîné noticiou que Fillon criou empregos fictícios para a mulher, Penelope, e dois filhos, beneficiando de avultados fundos públicos durante mais de uma década. A justiça abriu um inquérito e Fillon acabou por ser formalmente acusado de “uso indevido de fundos públicos”.

Fillon recusou repetidamente retirar a candidatura e denunciou “uma conspiração política”, mas não escapou a protestos junto a vários dos comícios que deu, com manifestantes a receberem-no aos gritos de “Ladrão!” ou “Devolve o que deves!”.

Responsáveis da campanha demitiram-se em cadeia, entre os quais o conselheiro para a política externa, Bruno Le Maire, o porta-voz, Thierry Solère, e o diretor de campanha, Patrick Stefanini.

A queda nas sondagens foi rápida e clara: de segundo mais votado, a seguir a Le Pen, passou para terceiro, atrás do independente liberal Emmanuel Macron e, mais recentemente, para quarto, atrás do candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon.

Filho de um notário e de uma historiadora, Fillon nasceu em Le Mans (centro-oeste) a 4 de março de 1954.

Aos 22 anos, recém-licenciado em Direito, entrou na política como assistente de um deputado de uma pequena localidade próxima de Le Mans, Sablé-sur-Sarthe, Joel Le Theule. Quando o mentor morreu, em 1980, François Fillon, sucedeu-lhe e em 1981, com 27 anos, entrou para a Assembleia Nacional.

Entre 1993 e 2005 participou em todos os governos de direita. Seguiu-se o Senado, até 2007, quando ascendeu ao cargo de primeiro-ministro, no qual se manteve por cinco anos, até 2012.