Organização de direitos humanos pede a Maduro que proteja a Venezuela da fome

02 Fev 2018 / 08:35 H.

Em média 4,5 milhões de pessoas fazem apenas uma refeição por dia

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos pediu hoje a Nicolás Maduro que “reforce os esforços para proteger a Venezuela da fome”, revelando que mais de quatro milhões de venezuelanos fazem apenas uma refeição por dia.

“O Estado venezuelano deve reforçar os seus esforços para garantir níveis essenciais para proteger a sua população da fome, inclusive perante situações de limitações graves de recursos”, diz, em comunicado, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

O documento começa por explicar que a Venezuela passa por “uma crise económica e social marcada por um contexto de escassez e de falta de abastecimento de alimentos e de medicamentos que está a aumentar de maneira alarmante”.

“Esta situação afecta em particular as pessoas, grupos e colectivos em maior situação de vulnerabilidade e de pobreza, resultando especialmente grave para crianças, mulheres, população indígena, afrodescendentes, migrantes, detidos e anciãos”, afirma.

Segundo a CIDH, falta informação oficial actualizada mas há dados de que entre 2014 e 2016 1,3 milhões de pessoas estavam “subalimentadas” na Venezuela, 3,9% mais que no triénio anterior.

“Preocupam as reiteradas denúncias recebidas sobre o risco que teriam milhares de crianças de perder a vida por desnutrição, durante este ano (2018). Em 2017, teriam falecido semanalmente entre cinco e seis crianças por falta de alimentação e pelo menos 33% da população infantil apresentaria indicadores de atraso no crescimento”, explica.

Por outro lado, “em média 4,5 milhões de pessoas” fazem apenas “uma refeição por dia e em ocasiões cada dois dias, resultando que 11,4% da população infantil já se encontraria em situação de desnutrição”.

Segundo a CIDH há denúncias constantes de “falta de acesso a medicamentos e a tratamentos médicos” inclusive para doenças básicas como a diabetes, diarreia, hipertensão e infecções respiratórias, nalguns casos em mais de 80%.

Também que 85% das farmácias de Caracas não têm medicamentos para “infecções oportunistas” que atacam as pessoas com Sida e que entre 95% e 100% dos hospitais não têm “antirretrovirais”, o que ocasionou a morte de 5 pessoas que estiveram seis meses contínuos sem tratamento.

Segundo a CIDH os bancos de sangue estão deteriorados e há falhas de reactivos e materiais para descartar doenças em doações de sangue, intervenções cirúrgicas e tratamentos com transfusões em pacientes renais, hematológicos e oncológicos, entre outros, sendo preocupante o aumento de doenças como a malária, a zika e a difteria, desde 2015.

“Os aumentos de preços gerais, dos alimentos e medicamentos, somados aos altos índices de inflação repercutem directamente na segurança alimentar e na saúde da população, em particular a que se encontra em situação de pobreza e que se vê obrigada a destinar a maior parte dos ingressos à compra de alimentos e medicamentos”, explica.

O comunicado sublinha que a gravidade da situação “não admite demoras”.

A CIDH denuncia ainda que as bolsas de alimentos subsidiados distribuídos pelo Estado “não são entregues a pessoas opositoras do Governo” e que faltam critérios claros de atribuição, periodicidade e produtos a entregar, assim como das necessidades nutricionais da população, estando condicionado o acesso a portadores de um documento de militante do partido do Governo.

Para a CIDH é preocupante “a negativa do Estado venezuelano em receber cooperação internacional para paliar a crise económica e social, assim como a ausência de dados públicos oficiais”.