Maioria dos refugiados rohingya são crianças expostas a doenças, fome e perigos

20 Out 2017 / 09:06 H.

A maioria dos quase 600 mil refugiados rohingya, 58%, que sobrevivem em condições precárias no Bangladesh são crianças que sofrem de desnutrição e estão expostos a doenças infeciosas e a perigos à integridade física e moral, afirma a Unicef.

“É o inferno na terra, é assim que o descreveria”, afirmou em conferência de imprensa Simon Ingram, autor do relatório da Unicef “Banidos e Desesperados: crianças rohingya refugiadas perante um futuro perigoso”, apresentado hoje em Genebra.

Após duas semanas em Cox’s Bazar, localidade bengali onde se reuniram quase 600 mil refugiados desta minoria muçulmana recém-chegados, que se juntam a outros 200 mil rohingyas que tinham fugido anteriormente, Ingram descreveu uma situação “desesperada, de miséria e sofrimento indescritível”.

O relatório destaca o sofrimento a que foram expostos os menores durante ataques a que foram sujeitos quando estavam na Birmânia ou durante o trajeto até ao Bangladesh, para fugir à repressão.

“Não entrevistei nenhuma criança que não me contasse relatos horrendos de violações, pessoas degoladas, bombardeamentos e casas queimadas antes de partirem, e de disparos de atiradores furtivos durante a fuga”, descreveu Ingram.

O relatório inclui vários desenhos de crianças com soldados de uniforme a matar pessoas e helicópteros a disparar do céu indiscriminadamente.

Em meados de agosto, o Exército de Salvação Rohingya de Araken (ARSA) atacou postos das forças de segurança birmanesas e estes atentados geraram uma devastadora repressão do exército e da polícia que obrigou dezenas de milhares e pessoas a fugir do estado de Rakhine para o Bangladesh.

Ingram explicou que se sabe muito pouco do que se passa em Rakhine, dado que as agências humanitárias não podem entrar na região desde agosto, mas que a maioria dos refugiados “já chega desnutrido, já que a repressão também incluiu a queima dos armazéns de comida e destruição das colheitas”.

De acordo com os dados do Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), conclui-se que uma em cada cinco crianças com menos de cinco anos sofre de desnutrição aguda e cerca de 14.500 sofre de má nutrição severa aguda.

“Estes últimos precisam de assistência urgente, caso contrário há grande risco que morram”, afirmou.

Ingram explicou que com a campanha de vacinação contra a cólera -- que está quase a terminar -- e outras contra o sarampo e a poliomielite reduziram-se os principais riscos de infeção de doenças contagiosas, mas o perigo continua a existir.

“As condições de falta de água potável e saneamento nulo são fontes de infeção. As crianças carregam constantemente água contaminada”, acrescentou.

Em relação à proteção dos menores, o especialista indicou que o número de crianças desacompanhadas diminuiu até 800, com os trabalhos de identificação realizados por diferentes agências humanitárias no terreno.

“No entanto (...) o perigo de se perderem é constante. O campo de refugiados é enorme e há tanta gente que as crianças se perdem a toda a hora”, disse.

Em relação ao abuso sexual ou casamentos forçados ou antecipados, Ingram explicou que só conhecem casos pontuais, mas o trabalho infantil, por exemplo, é frequente.

“Começam a surgir pequenos pontos de venda de bens ou de comida, ou pequenos intercâmbios comerciais onde as crianças estão totalmente envolvidas”, disse.

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