Exposição em França procura descendentes de portugueses que combateram na Grande Guerra

23 Dez 2017 / 10:20 H.

A comissária da exposição “Racines” [”Raízes”], Aurore Rouffelaers, está à procura de descendentes de portugueses que combateram na Primeira Guerra Mundial para uma mostra que vai estar patente de 6 de abril a 7 de maio de 2018, na cidade francesa de Richebourg.

O objetivo é juntar objetos centenários e filmar testemunhos de filhos, netos ou bisnetos de soldados que combateram nas trincheiras da Grande Guerra, no norte de França, no âmbito das comemorações do centenário da Primeira Guerra Mundial e na cidade que acolhe o cemitério militar exclusivamente português de Richebourg L’Avoué, onde estão sepultados 1.831 militares.

A exposição vai estar aberta, nomeadamente, a 9 de abril de 2018, no centenário da Batalha de La Lys, considerada como “a Alcácer Quibir do século XX” e em que morreram cerca de dois mil soldados do Corpo Expedicionário Português (CEP), nas vésperas do render de tropas.

A história de amor, a poucos quilómetros da linha da frente, há 100 anos, entre o bisavô português e a bisavó francesa, está na origem do interesse desta lusodescendente pela participação de Portugal na guerra, assim como os relatos que sempre ouviu da avó, Felícia Glória d’Assunção Pailleux, a mulher que nos últimos 40 anos tem sido a porta-estandarte de Portugal nas comemorações anuais da Batalha de La Lys.

“A ideia desta exposição é procurar os descendentes dos soldados portugueses que escolheram casar com francesas e ficar em França. É um trabalho difícil porque já passaram 100 anos e, com os casamentos pelo meio, os apelidos portugueses perderam-se. O meu avô era Assunção e eu sou Rouffelaers”, explicou, sublinhando que a exposição é apoiada pelo Centro de Turismo de Béthune-Bruay.

Para Aurore, “o importante é recolher testemunhos dos filhos da guerra”, entre os quais está a avó, de 90 anos, e que é a terceira de 15 filhos de João Manuel da Costa Assunção, um português de Ponte da Barca, que se apaixonou por Mélanie, uma francesa que morava numa granja a 15 quilómetros da frente de batalha.

Quando a guerra terminou, João Assunção ainda foi até ao barco para regressar a Portugal mas arrependeu-se e foi bater à porta da mãe de Mélanie, onde ficou a dormir no corredor até casarem. Alguns anos depois, o português adquiriu a nacionalidade francesa e abriu uma oficina de bicicletas.

“A ideia é mostrar a história local, misturada com a história de Portugal e tentar perceber se o facto de se ter pais portugueses pode ou não mudar uma vida. A minha avó é o exemplo perfeito que sim, pode mudar uma vida”, contou.

Além dos filhos, netos e bisnetos dos soldados portugueses que casaram com uma francesa e ficaram a viver em França , Aurore também quer testemunhos dos que procuram antepassados que tenham vivido uma história de amor fugaz durante a guerra e regressado a Portugal, tendo deixado filhos em França.

“Quero testemunhos sobre a história destes soldados, sobre a história da guerra e como é que, no norte de França, uma sociedade particular nasceu destas raízes portuguesas”, explicou.

Depois da exposição, Aurore Rouffelaers quer colocar os testemunhos numa plataforma acessível aos investigadores porque considera que é um tema que ainda não foi estudado.

Aurore Rouffelaers, de 38 anos, é também a coordenadora do Centro de Turismo de Béthune-Bruay para as comemorações do centenário da Primeira Guerra Mundial e está a trabalhar em coordenação com o Cônsul Honorário de Portugal em Lille, Bruno Cavaco.

A lusodescendente é, ainda, comissária da exposição “Amores Suspensos”, que vai estar patente de 6 de abril a 7 de maio, centro de turismo de Lillers, e que vai mostrar cerca de 150 cartas de amor de soldados portugueses.