EUA e Coreia do Norte há meses em contacto através de discreto canal diplomático

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12 Ago 2017 / 02:31 H.

A administração Trump está há meses, por detrás da retórica bélica, em discreta comunicação diplomática com a Coreia do Norte, sobre questões como a degradação das suas relações e os americanos presos no país comunista, noticiou ontem a Associated Press.

Há muito que era conhecido que Washington e Pyongyang tinham mantido conversações para garantir a libertação, em junho, de um estudante universitário norte-americano, mas não se sabia até agora que os contactos continuaram, ou que abordaram outros temas além dos presos norte-americanos.

Fontes próximas desses contactos diplomáticos indicaram que tais interações nada fizeram, até ao momento, para atenuar as tensões causadas pelos progressos em matéria de mísseis e armas nucleares do regime norte-coreano, que agora estão a alimentar receios de confronto militar.

Acrescentaram, contudo, que tais conversações de bastidores poderão ainda ser a base para negociações mais sérias, incluindo sobre as armas nucleares norte-coreanas, se o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, puserem de lado a retórica bélica dos últimos dias e se empenharem num diálogo.

Os contactos decorrem com regularidade entre Joseph Yun, o enviado norte-americano para a política com a Coreia do Norte, e Pak Song Il, um diplomata de topo da missão norte-coreana na ONU, de acordo com responsáveis norte-americanos e outros que acompanham o processo e que falaram a coberto do anonimato.

As autoridades chamam-lhe o “Canal de Nova Iorque”, e Joseph Yun é o único diplomata norte-americano em contacto com qualquer interlocutor norte-coreano.

As comunicações são sobretudo como um modo de trocar mensagens, permitindo a Washington e a Pyongyang retransmitir informação.

Após o furor desencadeado pelo aviso de Trump à Coreia do Norte, de “fogo e fúria como o mundo nunca viu” caso continuasse a ameaçar os Estados Unidos, o secretário de Estado, Rex Tillerson, manifestou alguma vontade de encetar negociações, sob uma condição: que Pyongyang ponha termo aos testes de mísseis que podem agora, potencialmente, atingir território norte-americano.

Tillerson até deu pistas sobre a existência de um canal de comunicação de bastidores.

“Temos outros canais de comunicação abertos a eles, certamente para ouvirmos o que têm a dizer, se tiverem o desejo de falar”, declarou num encontro sobre segurança na Ásia realizado esta semana nas Filipinas.

Tais interações podem indicar a existência de algum grau de pragmatismo na abordagem da administração Trump à ameaça norte-coreana, apesar das palavras radicais do Presidente.

Na sexta-feira, através da sua conta na rede social Twitter, Trump escreveu: “Soluções militares estão agora totalmente a postos, carregadas e prontas a disparar, caso a Coreia do Norte aja insensatamente”.

Mas na quinta-feira, disse: “Nós sempre consideraremos a realização de negociações”, mesmo não tendo elas resultado no último quarto de século.

Os contactos sugerem que também Pyongyang poderá estar aberta a negociações mesmo quando fala em lançar mísseis para perto do território norte-americano de Guam.

A Coreia do Norte ameaça regularmente com ataques nucleares os Estados Unidos e respetivos aliados.

Contactados pela Associated Press, o Departamento de Estado não quis emitir comentários sobre o canal diplomático de Joseph Yun, a Casa Branca também não comentou e um diplomata da missão da Coreia do Norte na ONU apenas confirmou o uso do canal diplomático até à libertação do estudante universitário norte-americano Otto Warmbier, há dois meses.