Cirurgião pioneiro de transplante prevê futuro de órgãos geneticamente modificados

07 Out 2017 / 10:46 H.

O antigo cirurgião Alexandre Linhares Furtado, responsável pelo primeiro transplante hepático com sucesso em Portugal, realizado há 25 anos em Coimbra, acredita que o futuro da transplantação passa pela criação de órgãos geneticamente modificados.

“Hoje já se faz clonagem e é possível um dia fazerem-se clonagens e a modificação genética de células do fígado do próprio doente, e criar, por vários métodos, um fígado que possa ser implementado a partir de um animal”, disse o médico, de 84 anos, à agência Lusa.

Linhares Furtado liderou em 26 de outubro de 1992 a equipa que efectuou o primeiro transplante hepático com sucesso.

“O que eu esperaria que nesta altura fosse uma realidade era a utilização de fígados de animais”, defende, explicando que o porco, “por variadíssimas razões, foi o animal mais escolhido, por ser mais parecido em certas condições com o fígado do ser humano”.

Em medicina, sustentou, “estas coisas demoram muito tempo, porque a passagem de experiências do animal para o homem requer muitas décadas e muito cuidado”.

O antigo cirurgião fala em avanços técnicos muito grandes nestes 25 anos, com critérios “muito mais apertados e resultados que melhoraram muito”.

“As indicações para transplante estão muito melhor definidas, há muita patologia hepática que transplantávamos na altura e que reduziu o número de doentes e o aproveitamento de órgãos de cadáveres é melhor”, explicou.

“Na transplantação, hoje é vulgar que centros que não arrisquem muito em doentes de alto risco tenham resultados de 90% de sobrevida. Quando comecei, tínhamos uma sobrevida de 78 a 80%, com muita mortalidade, pois transplantávamos casos que hoje seriam oficialmente recusados”, acrescentou.

Linhares Furtado foi também o primeiro cirurgião português a realizar o primeiro transplante de órgão em Portugal, em 20 de julho de 1969, quando não havia lei, tendo transplantado um rim de um dador vivo, da irmã do doente.

Sobre a actual lei da transplantação, o médico salientou que se tratou de uma legislação “muito à frente no tempo”, que motivou também a criação dos centros de transplantação.

“Foi um passo muito grande e, é curioso, não foi muito discutido. Só este ano, em janeiro, é que a França o adotou”, disse.

A lei de 1993, que começou a ser trabalhada em 1991, é inovadora, ao aplicar o princípio da solidariedade presumida e ao criar o registo de não dadores, para as pessoas que não desejam doar órgãos após a morte.

“Os nossos indicadores de transplantação eram muito maus em 1991. Eram péssimos e melhoraram bastante, quer na colheita de órgãos, em que passámos a ser um dos melhores países a nível de colheita, quer na transplantação, em que também somos - julgo que só superados pela Espanha e por mais um ou outro país”, salientou José Martins Nunes, antigo secretário de Estado da Saúde, um dos responsáveis pela Lei da Transplantação, aprovada, por unanimidade, na Assembleia da República, em 1993.

Para o presidente da secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, a transplantação “é uma grande odisseia que nem só pode ser considerada como um feito do ponto de vista técnico, científico e médico”.

“Mas também uma história de luta contra as adversidades que todos conhecemos e continuamos a conhecer, obviamente num enquadramento diferente, que são as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde”.

Em declarações à agência Lusa, Carlos Cortes lamenta que Coimbra tenha muitas dificuldades em recursos humanos e apela ao Ministério para que resolva “muito rapidamente este problema, já que foi o responsável por muitas pessoas que necessitam de fígados fossem desviados para outros centros de transplantação”.