A pensar “no futuro do país e do povo”, Xanana relembra os avós

10 Jul 2017 / 03:58 H.

Na ponta do estrado verde, no palco montado no recinto terraplanado perto da igreja de Manatuto, 65 quilómetros leste de Díli, Xanana Gusmão manda chamar de entre a multidão um ‘katuas’ (avô) e uma ‘férik’ (avó).

Devia ser o momento de silêncio, em homenagem aos mártires timorenses, antes do arranque do 17.º comício do CNRT na campanha para as legislativas de 22 de julho, onde se iria “falar do futuro do país, do futuro do povo”.

O ‘katuas’, de chapéu de ‘cowboy’, a ‘ferik’ de cabelo preto apanhado, ambos com a camisola azul da campanha do Congresso Nacional de Reconstrução Timorense (CNRT) que tem atrás um ?7’ vermelho - o lugar no boletim de voto - colocam-se ao lado do líder que fala à multidão.

“Quando falamos do futuro não podemos esquecer o passado. Fico contente de ver aqui tantos jovens. Mas também temos que lembrar os nossos ‘katuas’, as nossas ‘feriks’, os nossos avós”, explica aos milhares que minutos antes gritavam vivas ao partido e ao seu líder.

“Quero aqui também prestar homenagem aos nossos mártires”, diz Xanana Gusmão, 71 anos, outrora o ‘maun bo’ot’ (grande irmão) e agora o “avô Nana”.

Estão aqui em Manatuto os principais dirigentes do CNRT mas Xanana Gusmão, que chega com um tais à cintura, outro sobre o ombro e um pano tradicional na cabeça, é sempre o centro das atenções.

Nos dez minutos entre a entrada do recinto e o palco foi saudado pelos líderes tradicionais, ouviu poesia nacionalista da boca de uma jovem, abraçou gente de todas as idades, deu palmadas nas costas a muitos e cumprimentou cada um dos jovens que, pintados de branco e verde, - as cores do partido - escreviam com letras nos seus corpos a sigla CNRT e o nome de Xanana.

E chorou. Abraçando jovens e velhos.

Depois, ainda antes dos discursos, a representação do que o líder timorense explicou à Lusa tem vindo a ocorrer nos últimos comícios: militantes de outros partidos que tomam a decisão, ali mesmo, de ‘juntar’ o seu apoio ao CNRT.

Um por um, colocam-se em frente a Xanana no estrado, despem as camisolas dos respetivos partidos que traziam e participam numa espécie de exorcismo político, ao som de gritos de celebração da multidão.

Olhos nos olhos, Xanana veste aos homens e mulheres que param à sua frente a camisola do CNRT e depois agarra-lhes na nuca e num momento intenso como que a aperta antes de uma forte palmada nos ombros e um abraço.

Desde que a campanha começou que cenas como as de hoje se repetem um pouco por todo o país.

O CNRT ambiciona alcançar a maioria absoluta ainda que num cenário de várias forças políticas, da renovada presença da Fretilin e da presença do novo partido do ex-presidente Taur Matan Ruak (o PLP) essa possibilidade possa não se concretizar.

Xanana Gusmão diz que sim. E que, ao fim de cada comício, sente “mais responsabilidade”, mais apoio e a crescer essa ambição.

O recinto não está totalmente cheio. Mas o ambiente é de festa. E, pelo menos hoje, na estrada entre Díli e Manatuto - os 65 quilómetros estão quase todos em obras e demora-se quase duas horas na viagem - praticamente só se viam bandeiras e cartazes do CNRT.

Timor-Leste pode ter cada vez mais jovens, ter muitos jovens a estrear-se nas eleições - 20% são novos votantes - mas o papel ativo das figuras históricas continua bem vivo.

A campanha para as legislativas termina a 19 de julho, com o CNRT a escolher a capital Díli para o último comício.

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