A “nova Turquia” de Erdogan entre a esperança e o receio de futuras crises

17 Jul 2018 / 04:05 H.

A “nova Turquia” de Erdogan voltou a mobilizar-se no domingo para celebrar o segundo aniversário do fracassado golpe militar de 15 de julho e “homenagear os mártires”, num momento de mudança onde a esperança colide com o receio de futuras crises.

“Uma nação, uma bandeira, um Estado”, pugnou o Presidente Recep Tayyip Erdogan no seu discurso de reeleição para a chefia do Estado no final de junho e que inaugura o novo executivo presidencial, onde vai deter poderes quase absolutos.

Uma frase que os milhares de participantes nas homenagens às vítimas dos confrontos continuam a idolatrar, quando após um apelo do Presidente milhares de populares desceram às ruas na noite de 15 para 16 de julho de 2016 para travar uma intentona com contornos que sugeriram diversas especulações.

“A Turquia costuma ser um Estado satélite, mas as pessoas sentem que isso acabou. Queremos promover as nossas políticas independentes, a nível interno, internacional, na economia, e lutar por isso. O nosso povo está empenhado em tornar de novo a Turquia numa nação honrada e respeitada na cena internacional”, sintetizava Hilal Kaplan, socióloga e colunista do diário Sabah e Daily Sabah (a versão em inglês), pertencente ao poderoso grupo mediático Turkuvaz e com afinidades com o atual poder, o que pretende a “nova Turquia” do Presidente Recep Tayyip Erdogan.

Um país que continua em “revolução”, com a definitiva afirmação do Islão político na sequência das eleições de 24 de junho que legitimaram o regime presidencialista aprovado por curta margem no referendo de abril de 2017, e confirmaram a maioria absoluta do seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), agora em coligação com a corrente ultranacionalista do Partido de Ação Nacionalista (MHP).

A imagem de Erdogan, no poder desde 2003, de início como primeiro-ministro e desde 2014 enquanto chefe de Estado, impõe-se por toda a grande metrópole de Istambul, 20 milhões de habitantes. Poderá manter-se na liderança do país até 2018, caso vença um novo escrutínio presidencial marcado para meados de 2023, quando a Turquia celebra os 100 anos da implantação da “República laica e secular” por Mustafa Kemal Atatürk.

“Obrigado povo, obrigado Turquia. Istambul venceu”, dizem os cartazes do AKP, com a imagem de Ergogan e suspensos em vagas sucessivas nos postes de iluminação, por todas as avenidas. Como as bandeiras do país, gigantes, que esvoaçam sob as pontes do Bósforo, nas colinas que rodeiam a cidade, ou que pendem dos grandes edifícios envidraçados da zona financeira.

Mas são as consequências do golpe militar fracassado de 15 para 16 de julho de 2016, atribuído pelo poder de Ancara ao movimento do predicador exilado Fethullah Gülen (o Grupo Terrorista Gulenista [FETÖ] como é denominado pelo Sabah e restantes ‘media’ oficiais) que ainda justificam a mobilização popular.

“15 de julho. Não esqueceremos”, dizem grandes faixas a vermelho também colocadas estrategicamente em vários pontos da cidade, numa encenação prévia das cerimónias que decorreram domingo para assinalar o segundo aniversário do golpe, que provocou centenas de mortos, milhares de feridos e justificou uma vaga de prisões e de purgas sem precedentes na história recente do país euro-asiático.

E o Sabah, um jornal que defende o atual Estado, inclui-se na vaga mediática dominante que se tem esforçado por manter o 15 de julho na agenda e disseminado uma particular versão dos acontecimentos, como reconhecem diversos dos seus colunistas num encontro com um grupo de jornalistas estrangeiros convidados a visitar a Turquia neste segundo aniversário da intentona.

A “mobilização e a vigilância” popular permanece neste contexto um fator decisivo para o regime de Ancara, acompanhada por medidas de suavização, como o anúncio do fim do estado de emergência para a próxima quarta-feira, dia 18, após dois anos em vigor.

Nesse período, foi facilitada a vaga repressiva pós-golpe e que não atingiu apenas os setores “gulenistas”, mas ainda jornalistas, funcionários públicos, magistrados, dirigentes políticos, em particular da corrente pró-curda. Cerca de 77.000 detenções e 150.000 pessoas despedidas ou suspensas desde julho de 2016.

Para além da perseguição ao que resta do “gulenismo”, outros desafios internos, sobretudo na área económica, e o contexto regional, também constituem desafios imediatos para o chefe de Estado, num país que se aproxima dos 80 milhões de habitantes e cujas fronteiras de estendem da Grécia e Bulgária até ao Iraque e Irão.

“A economia turca está em recuo, mas vamos recuperar. Temos todas as condições para que isso aconteça e este Governo irá tomar as medidas certas”, assinala Kerem Alkin, professor de Economia e um habitual colunista do Sabah, com posições muito próximas do regime, no rescaldo do anúncio da agência de notação de risco Fitch, que na sexta-feira desceu a nota da dívida soberana turca.

Ao justificar a decisão, a agência de notação financeira assinalou a intensificação dos riscos sobre a estabilidade macroeconómica do país, um desemprego que pode disparar, a contínua depreciação da libra turca face ao dólar, uma inflação que ultrapassou a barra dos 15% em junho, a designação do presidente do Banco central por decreto pelo chefe de Estado, ou o facto de Erdogan ter designado o seu genro Berat Albayrak como novo ministro das Finanças, mesmo a “deriva autoritária” do país.

“Temos de encontrar soluções para a inflação e o setor privado”, reconhece Kerem Alkin, que num recente artigo na sua habitual coluna no Daily Sabah, a versão em inglês do periódico, defendeu um processo “calibrado” nas políticas monetárias e fiscais, e um crescimento mais “moderado”, num contexto de guerra comercial global.

Os desafios geoestratégicos também constituem outra preocupação permanente para Erdogan, também o chefe máximo das Forças Armadas turcas e que permanecem o segundo maior exército nacional da NATO.

As relações com os Estados Unidos, os laços com a Rússia, o envolvimento na guerra da Síria, as relações com a União Europeia e as ambições globais de Ancara, são cinco questões que o Presidente turco terá de encarar neste novo quinquénio. E nesta matéria, como em muitas outras, continuam a prevalecer inúmeras incógnitas.

Tópicos

Outras Notícias