Há 15 anos que é presidente do núcleo regional da associação ambientalista Quercus e ama o que faz. Na ressaca dos incêndios que consumiram pelo menos 6 mil hectares de floresta madeirense, Idalina Perestrelo, em entrevista ao DIÁRIO e à TSF-Madeira, diz que houve falhas na prevenção e no combate aos fogos, sobretudo na primeira intervenção. E não colhe o argumento do Governo de que os meios aéreos (helicópteros) não podem operar em vales e montanhas com ventos cruzados. Diz que há, na Madeira, a cultura do fogo (fazer fogueiras em vez de deixar o mato apodrecer), denuncia que a política que se pratica é a que se praticava há 30 anos e considera inadmissível não haver um Plano de prevenção e de Combate a Fogos. Rejeita o regresso do gado às serras e interroga-se sobre a aversão das entidades administrativas (quer Câmaras Municipais quer Governo Regional) à planificação. E a exiguidade do território não pode ser desculpa para suspender PDM's ou não avançar com as cartas de risco e os Planos de Ordenamento da Orla Costeira. Idalina Perestrelo não tem ambições políticas e convive bem com 'tiradas' políticas segundo as quais os ambientalistas que recorrem aos Tribunais são 'sabotadores'. Aliás, diz que fingimos que não percebemos que o ambiente é um aliado e não um 'sabotador' da economia. Denuncia erros de reconstrução no pós-temporal de 20 de Fevereiro, de que é exemplo flagrante o Ribeiro da Pena, e que vivemos numa terra em que há pessoas que têm medo de falar.Tem dúvidas quanto às verdadeiras intenções do Governo na suspensão do projecto do teleférico do Rabaçal (até porque a UNESCO ainda não se pronunciou e suspensão é diferente de abandono do projecto) e não tem dúvidas de que a Quinta do Lorde está implantada em área da Rede Natura 2000. Sobre o objectivo traçado pela União Europeia (UE) dos países-membros e das Regiões atingirem, em 2020, os 20% de 'energias verdes', Idalina Perestrelo diz que a Madeira está a dar passos importantíssimos na energia eléctrica mas noutras áreas da Energia ainda há muito por fazer. Por exemplo, no incentivo aos transportes públicos onde, incompreensivelmente, a Horários do Funchal (HF) perde utentes a cada ano que passa. Taxar o acesso de carros particualres ao centro da cidade? Só em última instância, diz. Aplaude projectos como o 'eco', as bicicletas públicas ou a 'linha verde' mas considera que os autocarros da HF são desconfortáveis e afugentam utentes. Sobre a reciclagem de resíduos sólidos aplaude os passos extraordinários que o Funchal (que hoje faz anos) está a dar e desafia o outros Municípios for a do Funchal a fazer o mesmo. No que toca à política da água, ela é ainda barata, e na poupança é que está o ganho.
As serras da Região foram assoladas nos últimos dias por grandes incêndios. Todos sabemos das consequências graves, especialmente na época das chuvas. O que é que é possível fazer para minimizar os efeitos negativos destes incêndios?
Infelizmente, este ano, temos tido um ano muito catastrófico em termos de situações ambientais. Tivemos a aluvião em Fevereiro, agora estes incêndios que foram devastadores para a nossa floresta laurissilva e para muita outra floresta exótica e matos. As consequências são graves. Quem dá uma volta pela ilha e, em particular, pela zona do Pico do Arieiro, percebe o perigo que ali está. São rochas soltas, partidas, o solo está solto, erodido, são troncos de árvores que arderam e de urzal que está caído, outro que ainda está em pé mas que vai secar e acabará por cair. Tudo isto, numa chuva, que não precisará de ser como a que ocorreu a 20 de Fevereiro, poderá vir encosta abaixo e as consequências serão de entupimento de ribeiros muito rapidamente, galgamento de águas, enfim... Temos de estar em alerta para o tempo de Inverno. Teremos de fazer algumas limpezas, nomeadamente a retirada dos troncos que estão no chão e avançar rapidamente para a reflorestação.
Reflorestar como?
Tenho duas opiniões. Devemos reflorestar com plantas autóctones. Mas essa reflorestação só terá efeitos daqui a muito tempo.
Quanto tempo, três, quatro, cinco décadas?
Não tanto. Pelo menos a camada de urzal que não será plantada mas que se poderá fazer sementeira. Não é propriamente plantar árvores porque elas vão demorar 10, 15, 20 anos a ter algum porte mas tentar fazer sementeira de urzes, de massarocos, de herbáceas e de arbustivas. De algumas plantas que temos cá e que crescem razoavelmente num ano. Que poderão dar algum aspecto, algum brilho à paisagem e segurar algum material que está solto.
Combater a erosão?
Exactamente.
O Parque Ecológico do Funchal praticamente foi todo ardido. Fala-se muito nas falhas na limpeza da floresta. Ali não foi o caso mas também ardeu. O que é que falhou?
Falhou muita coisa. Falhou a vigilância, que infelizmente não existe. Falhou toda a estratégia de prevenção, de limpeza, de voluntariado nas serras, de sensibilização da população para não fazer queimadas nesta altura. De penalização para quem faz essas queimadas porque, infelizmente, não há a penalização devida e justa para estes caso. E depois falou, a meu ver, a primeira intervenção no combate ao incêndio florestal que começou na Eira do Serrado.
Falta de meios?
Falta de meios, atraso da Protecção Civil na resposta. Não posso precisar claramente o que falhou mas, que falhou a primeira intervenção, falhou e daí o incêndio se ter propagado como se propagou e ter devastado a área de floresta que devastou.
Está provado que há um ciclo de regeneração. Mais ou menos, de 13 em 13 anos, há um grande incêndio nas serras da Madeira. Face a isto, as medidas que têm sido tomadas, quer a aquisição do chamado 'Tampão Verde', a protecção, a vigilância que era feita pelos BMF ao Parque Ecológico do Funchal, os meios aéreos que creio que defendes para o combate. Tudo isto não devia ter sido pensado, atendendo à história que demonstra que de 13 em 13 anos há um grande incêndio?
Infelizmente temos um problema que é 'não aprendemos com o que acontece, com o que se passa na nossa terra'. Não aprendemos com a questão das aluviões e não aprendemos com a questão dos incêndios ou outras. Esta situação [incêndios] é mais um desses casos. Praticamos a mesma política de há 30 anos. E não podemos continuar essa política em que não temos um Plano de Combate a Fogos. Não temos um Plano de Prevenção. Não temos vigias nas nossas serras. Foram construídas sete torres de vigias com dinheiros da Comunidade Europeia e essas torres estão vazias. A Quercus, há cerca de seis anos, esteve nas serras a fazer vigilância. Tínhamos um projecto de vigilância de fogos florestais em que nos baseávamos no voluntariado de muitos cidadãos mas depois... A Direcção Regional de Florestas (DRF) poderia ter uma estratégia em que chegaríamos a Junho e tínhamos um conjunto de jovens que, nos tempos de Verão, voluntar-se-iam para que tivéssemos essa vigilância nesta altura. A DRF facilitaria algum transporte e até, quem sabe, alguma alimentação e teríamos nas nossas serras jovens a fazer vigilância.
Concordas com a videovigilância, um projecto que foi abandonado pelo Governo Regional que chegou a abrir um concurso público?
Concordo. Nós aqui [na Madeira], ou não fazemos ou abandonamos as coisas mal elas começam a nascer. Há que alterar tudo isso, a vigilância através de câmeras [de vídeo] é uma hipótese mas nunca descorando o cidadão vigilante nas serras. Acho que isso é imprescindível e terá de ser pensado pelas entidades governamentais, em conjunto com associações e a própria Quercus está disponível como esteve no passado. Para que se inicie uma vigilância em determinadas alturas. Neste momento vamos à serra e pergunto: Para além dos bombeiros que estão a fazer o combate a pequenos reacendimentos, onde é que está a vigilância?
Os Guardas Florestais?
Bem! Mas Será que os Guardas Florestais que existem e que neste momento trabalham são suficientes para abranger toda a área? É que, e não quero descorar o mérito que têm os Bombeiros, os Guardas Florestais, mas damos uma volta pelas serras e pouco os encontramos. É verdade que as nossas serras são grandes mas não assim tanto. Sou muito crítica porque acho que houve aqui grandes falhas por parte das entidades governamentais. Há, por parte dos cidadãos que fazem os pequenos fogos, que iniciam os pequenos fogos, pequenos incêndios, pequenas queimadas, mas há ainda mais por parte das entidades governamentais que lavam as mãos nesta altura. As coisas aconteceram, lavaram as mãos e a culta foi do Sr. que ateou o fogo. A culpa é dele mas também de quem não fez a prevenção, a vigilância e a primeira intervenção. Mais uma vez refiro que a primeira intervenção falou muito.
Achas que há mão criminosa neste tipo de incêndios, sobretudo conhecendo nós que pode haver vinganças tão entranhadas nos madeirenses, por causa da retirado do gado, do abate de cabras que aconteceram bem recentemente? Poderá haver um sentimento de vingança por parte desses frequentadores da serra?
Acho que não. O que acho que existe é a cultura do fogo. Na nossa Região, qualquer coisita, fazemos fazemos uma queimadazinha mas nos livramos do mato. Em vez de deixarmos o mato apodrecer para fazer compostagem. não, qualquer coisita, queimamos lixo, queimamos ramagens, queimamos as folhas. Temos muito essa cultura do fogo. Não entendo bem porquê mas isso acontece e faz com que haja situações como a que ocorreu agora. Estes últimos dias, temos vindo a falar da situação de Machico, hoje [sexta-feira] houve mais uma situação no Caniçal. E isso mostra bem a tal cultura do fogo. Os jovens em Machico porque é que não limparam a zona, arrastavam o mato para uma zona que não causasse perigo na hora em que os facho fossem acessos e depois deixavam o mato a apodrecer, a alimentar e a adubar a terra. Não, a ideia é 'temos uma isqueiro à mão, vamos atear fogo'. Às vezes é um acto impensado outras vezes pensado. Há das duas situações. Temos de fazer sensibilização para que, nestas alturas, a população esteja mais alerta e tenha realmente consciência que não se devem fazer queimadas.
Há quem conteste a retirada do gado das serras porque há carreiros que se fecharam, menos pessoas na serra. Aliás, o CDS na Ribeira Brava vem, agora, propor o regresso doa gado à serra mediante determinadas condições até para limpeza de algum tipo de vegetação. Foi uma boa medida a retirada do gado, assim como foi?
Foi. Sem dúvida. Não tenho qualquer dúvida. É ver zonas que estavam completamente erodidas há 10 anos e a recuperação que tiveram até agora. Foi uma recuperação espectacular. As urzes, em muitas das nossas zonas de montanha, tiveram uma recuperação maravilhosa. Tínhamos um urzal já adulto e, após esse urzal, vai dar azo a que cresçam outras plantas nomeadamente alguns loureiros, uveiras, enfim, esse urzal é extremamente importante e, após a retirada do gado da serra, essa camada de floresta conseguiu rejuvenescer.
Mas ainda há sítios com vacas. Por exemplo, no Fanal.
Pois! Essa é outra questão que nós defenderíamos que fossem retiradas, pelo menos, daquela zona. Se houver vacas em pasto aberto nas nossas serras, devem de ser limitadas a determinada zonas que não áreas sensíveis como a do Fanal. E nós vamos ao Fanal e, para além dos imensos carrapatos que encontramos e trazemos para casa, temos os tis que não conseguem regenerar. Porquê? Porque as vacas comem todos os pequenos rebentos que começam a sair dos troncos dos tis. E, aqueles tis que elas não chegam, que foram vedados, esses estão completamente cheios de rebentos à volta enquanto que os que estão à mercê das vacas não têm um único rebento. Isso mostra bem que o pasto na serra não é bem-vindo.
Este foi um ano extremamente complicado para a Madeira. Foram os incêndios, foi a aluvião de 20 de Fevereiro. Meio ano depois da aluvião, a reconstrução segue no bom caminho?
Acho que estamos a falhar novamente na reconstrução. Estamos a ir pelo caminho errado. A Quercus tem vindo a alertar para o facto de ser necessário deixar determinados ribeiros livres de betão, no seu estado natural e, o que tem sido feito, para além dos que já estavam canalizados fomos canalizar muito mais, encosta acima. Não se compreende esta situação. Em vez de, mais uma vez, caminharmos para a estratégia de prevenção, estamos a caminhar para uma estratégia errada que vai fazer com que, facilmente, meia dúzia de troncos que venham encosta abaixo entupam entupam esses ribeiros e teremos novamente situações de galgamento de águas.
Está a referir-se concretamente à Serra de Água?
À Serra de Água, ao Ribeiro da Pena. Não sei se já tiveram oportunidade de ver o Ribeiro da Pena. Aquilo é um escândalo. Acho que o que eles pretendem, ali, é reduzir o ribeiro para um a um metro e meio -não deve termais do que isso-e depois, toda a área que sobra, vão fazer de parque de estacionamento para uma outra unidade que lá existe perto. E não se compreende essa situação. Ali havia espaço para alargar o ribeiro pelo menos para dois a três metros e não se o fez. Encolheu-se o ribeiro mais uma vez e este é um exemplo flagrante. Foi uma zona em que houve muitos mortos e estamos a cometer um erro muito maior. Se antes já estava muito estreito, agora está ainda mais. Será, com toda a certeza, uma zona de perigo numa momento de grande chuva, de grande aluvião.
Se isso é assim tão evidente, porque é que acontece?
É uma boa pergunta. E, inclusive, recentemente foi publicado um estudo que o Governo tem em mãos, feito por técnicos da Universidade e do Laboratório de Engenharia Civil de Lisboa, por um conjunto de entidades que eles próprios pediram. Dizem o que acabei de dizer, que são situações de perigo, que não se deve fazer isso e, no entanto, eles fazem. Pergunto-me, realmente, qual é a ideia, o que pretendem?. É porque as situações de aluvião vão ocorrer com maior frequência. O penúltimo foi em Outubro de 93. Tivemos um outro a 20 de Fevereiro e as situações são cada vez mais frequentes. O tempo de calor também será cada vez mais frequente. Os incêndios poderão ser cada vez mais frequentes são não tomarmos medidas. Tendo em conta tudo isto, pergunto, realmente, o que é que se pretende para a nossa ilha?
As nossas entidades administrativas, quer o Governo Regional quer as Câmaras, são avessas à planificação. Andamos há anos a falar da revisão dos PDM, das cartas de risco, dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira (POOC's). Porque é que não se avança, será porque há interesses privados que colidem com esta planificação?
Sim. Os interesses económicos. Infelizmente ainda não se percebeu que a economia deve estar ligada ao ambiente. E que só assim teremos um futuro para a nossa ilha. Um futuro turístico e económico. Ou se calhar percebemos mas fingimos que não percebemos. E depois temos a situação de 'porque este quer construir aqui e o outro já tem a ideia de fazer um hotel ali', vamos adiando os planos e não nos interessam. O exemplo são os POOC's. Acho que enquanto não houver ali mais uns quantos hotéis ou infraestruturas no litoral, não vamos ter POOC's. Os PDM's também não interessam. Ainda recentemente ouvi a declaração de um presidente de Câmara onde ocorreram vários fogos a falar da revisão do PDM e a dizer que, junto a zonas de construção, não se poderiam criar zonas verdes, zonas de protecção. Bem, isso assim seria em toda a ilha porque, sempre, após uma zona de construção temos zonas verdes. Estou a lembrar-me das zonas altas do Funchal. Chega a construção até um determinado ponto e, se não criámos uma zona verde daí para cima, vamos deixar para mais construção?
A exiguidade do território não pode ser argumento para não planificar!
Não, não pode. Acho que, aqui, as próprias entidades confundem-se muito. Não estão a perceber bem o porquê da planificação. Ela é importante para criar um ordenamento. Para dizer que 'esta zona será assim, esta será daquela forma'. Aí teremos melhores estratégias para gerir um território que, de si, é complicado. Concerteza que temos um relevo complicado mas só com bons planos, de prevenção contra os fogos, bons PDM's, bons POTRAM's, bons POOC's, só assim é que conseguiremos avançar num futuro mais sustentado.
Falha aí uma consciência colectiva? As associações ambientalistas como a Quercus procura fazer um trabalho nessa área. Sente que a opinião pública está ao lado desta forma de ver as coisas ou é um pouco laxista?
Se falássemos há 20 anos estaria completamente do lado de quem ordena. Mas, neste momento, já vemos algumas, muito poucas infelizmente, consciências que mudaram com o tempo e perceberam que, realmente, temos de fazer as coisas de uma forma diferente. Que temos de reciclar mais, de fazer vigilância contra fogos, de poupar água, energia. Enfim, já existem consciências que acham que aquele ribeiro não deve ser feito daquela forma. Há consciências assim mas são poucas. E muitas outras não querem dar a cara. Pensam dessa forma mas têm medo de falar porque, infelizmente, vivemos numa terra de medo. Estou a dizer isto porque acabei de receber um telefonema com uma denúncia em que a pessoa disse que não podia dizer o nome ou dar o número de telefone. Recebemos imensas destas denúncias na associação Quercus. As pessoas alertam-nos para algo mas acabam por ter medo de dizer o nome e dar o número de telefone.
E a Quercus sente essa pressão? Há razão de ser? Há fundamento para isso?
Não. Estou na Quercus há 15 anos. Tirando uma situação que foi muito pontual, nunca senti qualquer pressão, nunca tive qualquer receio de nada. Nunca tive qualquer problema até hoje. Obviamente que, de vez em quando ouvidos algumas 'bocas' do género 'se ela passar por aqui vai ver o que lhe vai acontecer ao carro'. Às vezes, até, empresários que foram afectados por alguma crítica nossa. As entidades governamentais não o fazem mas, essencialmente, algumas pessoas que foram afectada por alguma crítica ou denúncia que tenhamos feito. Mas nunca nos fizeram mal.
Não há razão para ter medos?
Não. Não se pode viver numa terra de medo. Afinal de contas, o pensamento e a opinião são livres. Não devemos de ter medo de dizer aquilo que achámos e que realmente está certo.
Porquê o receio da Região em aplicar a Reserva Agrícola Nacional (RAN) e a Reserva Ecológica Nacional (REN)? As questões relativas ao Parque Natural estão mais ou menos protegidas. O mesmo não podemos dizer da Rede Natura 2000. A Quercus intentou a tal acção por causa da 'Quinta do Lorde'. Por haver ali uma suspeita de que poderia, eventualmente, entrar nessa área protegida...
Não há suspeita. É certo, certíssimo. Os documentos provam isso. Não inventem documentos porque os que estão publicados legalmente mostram bem que a 'Quinta do Lorde' está dentro da Rede Natura 2000, dentro de uma zona protegida. Não tenho qualquer dúvida.
A pergunta é: A Quercus lida bem com os ecos políticos relativos aos que movem acções populares, que recorrem aos Tribunais, que são conotados com 'sabotadores' do desenvolvimento. A Quercus lida bem com esse tido de críticas?
Sim. Nós sabemos aquilo que defendemos. Acima de tudo, defendemos a Madeira, o povo madeirense, a natureza madeirense. Sabemos aquilo que dizemos. Fazemos questão de estar sempre munidos de argumentos válidos e certos. E, portanto, não temos qualquer problema quando vêm-nos dizer. O caso da 'Quinta do Lorde' foi uma exemplo disso. Houve até publicações a nos contradizer mas temos os documentos, mostramos ao Ministério Público (MP) esses documentos. Não se entende, realmente, como é que se dá a volta às questões. Damos a volta de tal maneira que acontece o que aconteceu. A construção na 'Quinta do Lorde' foi para a frente. Neste momento está parada. O que é caricato. Andamos aqui a arranjar formas de legalizar tudo aquilo. E depois acaba por ser parado por uma situação económica.
Por falar em projectos parados, a Quercus deve estar satisfeita, pelo menos, com a travagem que se fez em relação ao teleférico do Rabaçal?
Ainda estamos a aguardar. É verdade que têm saído notícias de que o teleférico do Rabaçal está suspenso, por agora. Mas, também é certo que a UNESCO ainda não se pronunciou. Ainda recentemente, esta semana, o Dr. Raimundo [Quintal] recebeu um 'email' da UNESCO a dizer que ainda não se tinham pronunciado porque havia uma reunião no final de Julho/princípio de Agosto mas não analisaram essa situação e ainda não se pronunciaram. Para além disso, uma suspensão não é o abandono do projecto. Ficamos apreensivos para além de que ainda decorre a nossa acção no Tribunal. É uma acção que já decorrerá em modos diferentes mas não a retiramos.
Não nota que, às vezes, é uma voz a bradar no deserto. Não especificamente no caso do teleférico mas noutras situações em que lutam, lutam mas depois acabam por se concretizar aquilo que consideram verdadeiros atentados?
Vou ser sincera, às vezes sim. Apetece-me fazer como tantos outros e sentar-me no sofá a ler um livro e deixar as coisas andarem. Mas não. Gosto daquilo que faço, daquilo que defendo que é a Natureza, o Desenvolvimento Sustentável, um planeamento, um crescimento, uma estabilização sustentada. Amo aquilo que faço e quando se gosta daquilo que se faz, há momentos em que vamos um bocadinho abaixo mas, depois, voltamos para a mó de cima e estamos prontos a combater mais um bocadinho.
Estamos em condições de atingir aquela meta dos 20% das chamadas 'energias verdes' com projectos que estão a ser implementados pelo Governo Regional, nomeadamente no Porto Santo, tentar que aquela ilha seja uma 'ilha verde' com o biocombustível produzido através de microalgas, com o projecto que se fala há alguns anos da introdução do gás natural na Região. Estamos a caminhar para isso, é possível atingir essa meta?
Estamos a falar de uma meta que poderá ser possível atingir. Nesta momento, os tais quase 20% são de energia eléctrica e não ainda de Energia no seu total. Há aqui, às vezes, uma pequena confusão que é quando se fala de Energia pensamos só na eléctrica e achámos que estamos a cumprir os objectivos. Estamos a dar passos importantíssimos, sem dúvida, mas, em termos de Energia global, ainda há grandes passos a dar, nomeadamente no que diz respeito à questão dos transportes. Ainda nos deslocamos imenso de automóvel próprio para o centro do Funchal. Porque não temos uma rede de transportes públicos que nos ajude a evitar trazer o carro para o centro do Funchal.
O Plano de Mobilidade do Funchal, com alguns projectos co-financiados pela UE, nomeadamente das bicicletas públicas, recentemente anunciado, tudo isso contribui?
Sim. É por isso que digo que há passos que estão a ser dados que são importantes. Quer no aumento da produção eólica, quer na questão da biomassa no Porto Santo, quer na energia solar em que estamos a avançar. Mas, depois, há outros passos que têm de ser dados. Não se compreende como é que a empresa Horários do Funchal (HF) tem cada vez menos utentes. Isto mostra bem e deixa claro que as pessoas estão cada vez menos crentes nesta meio de transporte e isto não pode ser. Não entendo porque é que esta empresa [HF] tendo perdas [de utentes], estando a cair, não faz uma campanha para que os utentes voltem a ter confiança e voltem a usar muito mais este meio de transporte público. Não consigo compreender. Aliás, até costumo dizer que a empresa HF faz publicidade de tantas empresas só não faz publicidade de si própria nos autocarros. Seria muito fácil até, pensar numa campanha e depois promovê-la nos transportes que circulam por toda a cidade.
O acesso ao centro da cidade por parte de viaturas particulares devia ser taxado?
Será complicado mas, se calhar, poderá vir a ser uma medida futura e em última instância, caso não se consiga por outras vias. Por exemplo, o encerramento de mais artérias no Funchal, poderia ajudar a que se evitasse trazer o automóvel. Poderia ser também os parques na periferia, bem planeado e com autocarro a circular de X em X tempo para o centro do Funchal, ser uma outra hipótese. E depois há uma outra questão extremamente importante. Pode não ter tanto a ver com a questão ambiental mas também está ligada. Os autocarros são extremamente desconfortáveis. Ando de autocarro. É desconfortável. A condução dos próprios motoristas. É desconfortável e não é ecológica. Porque ora acelera ora trava. Isso não pode acontecer. Todas essas situações são desconfortáveis. E acabamos por recorrer ao nosso carro porque chegamos mais rápido e com mais conforto. São estas questões que têm de ser alteradas e o autocarro, o transporte público tem de ser mais confortável e mais barato do que o nosso automóvel porque, infelizmente, os preços não são apelativos. É um conjunto de coisas que têm e devem de ser alteradas para que tenhamos uma cidade mais ecológica, mais poupados na energia e com menos necessidade de energias fósseis.
Entremos na questão dos resíduos sólidos. O Funchal tem uma boa taxa de triagem, de recolha selectiva. Em relação às outras Câmaras não se poderá dizer o mesmo. Há aqui ainda algumas falhas e arestas a limar?
Muitas. Pelo menos no que diz respeito a fora do Funchal. O Funchal tem dado passos extraordinários no que diz respeito à recolha selectiva dos resíduos. É uma das melhores regiões do país, o que é impressionante. A recolha selectiva porta-a-porta tem demonstrado que, realmente, é um método válido, capaz e que consegue fazer com que haja uma recolha selectiva muito grande. Agora vamos avançar, no Funchal, para a recolha selectiva da matéria orgânica. Tenho a certeza que isso fará com que o Funchal suba imenso na taxa de reciclagem. Porque a matéria orgânica representa cerca de 40% e isso fará com que os lixos indiferenciados venham a baixar muito. O que não se compreende é, depois, a dificuldade que o Funchal terá dar um fim a esses resíduos orgânicos.
Há suspeitas de que, eventualmente por dificuldades de meios de recolha de lixo por parte das autarquias, quando os carros de recolha vão aos ecopontos misturam no mesmo carro tudo? A Quercus tem recebido denúncias destas?
Sim. O que apelamos aos cidadãos é que, quando o virem, tirem fotos e nos enviem. Realmente recebemos imensas denúncias do concelho da Ponta do Sol, Machico, Câmara de Lobos, enfim, vários. Às vezes acontece que são camiões bi-fluxos. As pessoas têm de ter atenção se é ou não um camião bi-fluxo, por exemplo para recolher papel e vidro no mesmo camião. Caso não seja esse o caso, temos de denunciar, tirar uma foto para depois podermos actuar com argumentos mais fortes, com um prova do que está a acontecer. O Funchal está muito bem. Terá problemas em dar vazão aos resíduos orgânicos que recolher visto que, na Meia Serra, a compostagem parece que não está a funcionar e até se fala que irá encerrar, dinheiro da UE que é de todos nós, dos nossos impostos, e que acaba depois por criar dificuldades. Depois temos a situação de todas as outras Câmaras, que agora passará, provavelmente, para a empresa da Secretaria do Ambiente que irá gerir a água e os resíduos mas temos concelhos com uma taxa de reciclagem extremamente baixa. Concelhos que até já estiveram melhores. Estou a lembrar-me da Ponta do Sol. Já houve momentos em que tiveram uma taxa de recolha maior e mais ecopontos. Nesta momento está a descer e há falta de ecopontos. Não se compreende porque é que as Câmaras não apostam mais fortemente na recolha de resíduos visto que pagariam muito menos à incineradora da Meia Serra. Isto já é, até, uma questão de economia, 2+2 são 4. Porque é que não se faz mais reciclagem? Não se entende. Há que mudar até porque as pessoas já sabem que devem fazer isso. Só há o problema de não praticar.
Temos um Plano Regional da Água. Temos água potável, água de rega. A Investimentos e Gestão da Água (IGA) faz esta gestão. As Câmaras têm uma dívida à IGA. É possível que nos próximos tempos o preço da água venha a aumentar para o consumidor final. Como é que se gere tudo isto?
Sou das pessoas e ainda bem que não estou na política porque sei que os políticos não devem tomar estas medidas porque não são populistas...
Nem tens ambições políticas?
Felizmente não tenho. Não é uma ambição minha. Mas, até defendo claramente o aumento do preço da água e o aumento do preço da Energia. Porquê? Porque a água é extremanente barata, a Energia também, muito barata. E isso faz com que depois as pessoas não poupem.
Há desperdícios?
Há muitos desperdícios. Recentemente, com a questão dos incêndios, ouvimos a Câmara do Funchal a dizer que esse consumo [da água] aumentou em mais de 30%. E isso acontece porque é muito fácil pegar na mangueirinha, abrir a torneira, não nos custa nada, o que são 10 a 15 euros, e lavamos os quintais. Muitas pessoas estavam a lavar os quintais no sábado [dia 14 de Agosto] quando no domingo tínhamos ainda faúlhas a cair em tudo quanto era sítio. Na minha varanda também aconteceu e não fui a correr lavá-la. Aliás ainda hoje está por lavar. Varri. Fica lá. Não é grave. E isto só acontece porque a água é barata. Quando o cidadão se queixa de que vão aumentar o preço da água e da energia diz que não é justo. Não. O cidadão não se pode queixar disso. Porque, para além de ser barato, há a questão de prioridades. A água e a energia é mais prioritário para a vida do cidadão do que uma carregamento de telemóvel de 100 euros. Queixamo-nos de gastar 20 euros de água no mês mas não nos queixámos de gastar 100 euros no telemóvel. São estas coisas que, às vezes, não se entendem. E o cidadão tem que perceber que a água e a Energia têm que aumentar para que se poupem estes recursos e não se polua tanto. Infelizmente, aqui, na Região, ainda gastámos muita energia fóssil e fazemos com que a poluição atmosférica seja maior e isso vá contribuindo para as tais alterações climáticas que, depois, vão fazer com que haja mais aluviões, mais incêndios.
Achas que os madeirenses estão preocupados com essas questões das alterações climáticas, do degelo, do buraco de ozono, do fenómeno transgressivo da costa, ou achas que isso são preocupações distantes e que a gente acha que não chega cá?
Sim. Acho que há muitas pessoas que acham que vivemos num cantinho do céu e que aqui não nos vai chegar nada. Não. Iremos ser prejudicados com as alterações climáticas e vamos sentir isso no clima, no aumento do nível do mar e teremos de ter consciência que, apesar de sermos poucos, também contribuímos para isso. Não será tanto como os Estados Unidos mas contribuímos e temos de ser nós, também, a colaborar nessa mudança para que se reduzam as emissões, se poupem os recurso hídricos, todos os recursos naturais. Porque vejo aqui muito desperdício e a palavra chave deverá ser Poupança, Poupança, Poupança. Porque desperdiçamos imenso.
Como é que está estruturada a Quercus? Tem muitos sócios? Qualquer pessoa pode pertencer? Como é que funciona?
A Quercus na Madeira já existe há 15 anos. A nível nacional estamos a fazer 25 anos. Somos uma associação pequenina. Não somos tão grandes como gostaríamos de ser. Na Região, gostaríamos de ter muitos mais sócios. Mesmo que fossem sócios anónimos que colaborassem ser dar a cara. Seria muito bom para nós. Ajudar-nos-iam em algumas situações em que precisámos de valores monetários. Para alguma acção judicial ou a nível jurídico. E os tais sócios anónimos poder-nos-iam ajudar dessa forma. Depois os sócios que quisessem ser activos ajudar-nos-iam na vigilância, na denúncia, na protecção, no lazer porque também temos situações de lazer e um conjunto de actividades diversas. Todos os sócios que venham são sempre poucos. Qualquer pessoa pode ser sócia, criança, jovem, adulto. Pode contribuir, quer na prática quer só como sócio, para que a associação continue o seu trabalho na Região.
Bem hajam os portosantenses pela dignidade...



