Verdelho, Sercial e Smoke Madeira entre os vinhos centenários encontrados nos Estados Unidos

O director de operações do Liberty Hall Museum fala ao DIÁRIO sobre a descoberta

12 Jul 2017 / 15:29 H.

Entre as mais de 50 garrafas e 42 garrafões de vinho Madeira encontrados durante a remodelação do Liberty Hall Museum, em Nova Jersey, estão, pelo menos, oito vinhos diferentes: “Encontrámos vários Madeira. Infelizmente, não sabemos sempre que tipo de Madeira está em cada garrafa”, esclarece Bill Schroh, director de operações do Liberty Hall Museum, ao DIÁRIO.

Apesar de ainda não existirem certezas sobre os produtores dos Vinhos Madeira agora encontrados, Schroh conta ao DIÁRIO o que sabe, para já, sobre a rara descoberta.

Há garrafas da colecção privada de Robert Lenox, um conhecido milionário e importador de vinho em Nova Iorque: Lenox Madeira, de 1796; Lenox Madeira, de 1809.

Fotos: Liberty Hall Museum

Mas há mais: Smoke Madeira, 1820, Sercial, de 1824, W. R. Travers Portuguese Minister, 1825, W. R. Travers Don Pedro, 1836, Old Sercial Madeira, 1849, e Verdelho Madeira (sem data).

“Até onde sabemos, alguns dos Madeira ainda estão bebíveis”, garante Bill Schroh ao DIÁRIO.

Fotos: Liberty Hall Museum

A descoberta é mais uma prova de que o vinho Madeira é dos mais antigos do mundo. Tudo começou quando o museu avançou com obras de recuperação e, atrás de uma parede construída durante a Lei-Seca, implementada nos Estados Unidos no início do século XX, estavam as mais de 50 garrafas e 42 garrafões de vinho Madeira, escondidas.

“Para poderem ser engarrafados, os vinhos datados da Madeira têm de envelhecer 20 anos em casco, em pipa”, explica Francisco Albuquerque ao DIÁRIO. Por isso, diz o enólogo da Madeira Wine Company, faz sentido que as datas “sejam anteriores à Lei-Seca”.

Os historiadores e especialistas do museu americano garantem que é a colecção mais antiga de vinho Madeira dos Estados Unidos: “Não fazíamos ideia que as garrafas estavam, lá”, disse John Kean, presidente do Liberty Hall Museum. “Esperávamos encontrar vinho, mas não fazíamos ideia da data. Foi uma grande surpresa”.

Para Francisco Albuquerque, a descoberta destas garrafas, algumas datadas pouco depois da Revolução Americana de 1776, representa a “importância do nosso vinho nos Estados Unidos”. Mas mais que isso: “É a prova de que é um vinho com índice de envelhecimento muito raro, com grande longevidade”. Como, aliás, acrescenta o enólogo, “já estava provado”.

E será possível que, passados 221 anos, o vinho ainda esteja bom, como crê Bill Schroh e a sua equipa?

Francisco Albuquerque não tem muitas dúvidas: “Devem estar perfeitos”, acredita. É que apesar de ser recomendável mudar as rolhas da garrafa a cada 20 anos para salvaguardar a preservação do vinho, esclarece o especialista, se o vinho estiver num ambiente fresco, frio, escuro e sem humidade, pode conservar-se durante muito tempo. O enólogo falava do vinho Madeira, claro. Tem a ver com o método de engarrafamento: “A oxidação não é um problema, está estabilizado ao ar”, acrescenta.

O Liberty Hall Museum, que actualmente pertence à Kean University, está a ser alvo de uma remodelação.

Antigamente, era conhecido apenas por Liberty Hall e foi a casa de William Livingston, o primeiro governador eleito na Nova Jersey., e signatário da Constituição. A casa foi construída em 1772, antes da Revolução Americana, e em 1811 passou a ser propriedade da família Kean.

Em 2015, decidiram que a adega da mansão devia ser alvo de uma análise e de recuperação. Por causa da Lei-Seca, a garrafeira estava escondida atrás de uma parede. Deitaram-na abaixo: “Submetemos o quarto a uma vistoria completa – análise de tintas, de argamassa, de tijolos, para percebermos o que precisava de ser reparado”, contou Bill Schroh, director de operações à CNN. Foi depois desta fase que, conta, encontraram “a incrível colecção de Madeira”. O valor ainda não é conhecido.

Francisco Albuquerque ficou entusiasmado com a descoberta e descreve-a como um “marco”. Lembrando que os Estados Unidos são o “o nosso mercado número 1” de vinhos de qualidade, o enólogo sublinha: “Vendemos para lá há 300 anos”.

A garrafa mais antiga tem 221 anos, mais de dois séculos, e a mais recente, 168 anos - Se é que podemos classificar como ´recente´ uma garrafa com esta idade. A colecção já é considerada a mais antiga de vinhos Madeira encontrada nos Estados Unidos e a adega está, agora, aberta ao público interessado.

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