Pôr água na fervura

11 Nov 2017 / 02:00 H.

    Torna-se necessário possuir alguma sensibilidade se desejarmos ser semeadores de paz e de alegria, no sentido de conseguirmos harmonizar algumas situações mais complicadas.

    Passou pela minha mente o acompanhamento, numa instituição de apoio a jovens, de várias situações de violência bem complicadas, com jovens com um percurso de vida difícil, em que se tornou necessário mesmo solicitar ajuda externa avalizada, enquanto orientadora e mediadora, no sentido de nos ajudar a entender e a debelar essas situações, bem como, proceder a uma integração com sucesso destes jovens em situação de risco. Constituiu um apoio precioso que na altura ajudou a ultrapassar as conjunturas de violência através da paz, da harmonia, da não-violência, evitando o desgaste dos técnicos, através da alteração das regras e normas existentes adequadas a situações de violência. Como é óbvio, tornava-se necessário acatar essas normas, sob pena de expulsão, o que viria a dar os seus frutos conduzindo a uma integração mais profícua, com maior sucesso em todos os sentidos.

    Lembro algumas conjunturas difíceis em que me vi envolvida. Um dia encontrava-me a embelezar e a tentar tornar mais confortável o espaço onde os jovens iriam receber formação. Apareceu uma jovem que me abordou: “Venho-me inscrever”. “Muito bem”, respondi, tendo questionado, seguidamente, em que área de formação. A jovem respondeu: “Não sei”. Seguidamente, questionei quais eram as suas habilitações académicas. Perguntou-me o que era isso. Com o coração apertado, querendo ajudar a jovem, inquiri: “Andaste na escola?” A chorar confidenciou-me que tinha andado só até à terceira classe, logo, não era elegível para os cursos em causa. Animando-a, solicitei-lhe que regressasse no dia seguinte, já que não me competia realizar a entrevista.

    Em reunião de equipa, constatámos a existência de várias situações idênticas. No sentido de ajudar estes jovens, solicitámos autorização para os integrarmos na formação, o que nos foi concedido, desde que, nessa altura articulada com o Ensino Recorrente, aumentássemos as suas habilitações académicas, introduzindo novos módulos, o que foi feito de imediato e aprovado posteriormente. Recordo agora duas situações de contraste. Uma delas, no dia em que a formação teve inicio. Ao final do dia, tudo o que no espaço tinha estado a embelezar e a tornar mais confortável estava praticamente destruído. E o tempo passou... Graças a uma supervisão externa as situações mais complicadas foram-se ultrapassando. A outra situação, foi a enorme alegria que senti, quando a jovem atrás referida, já com uma postura bem diferente, cheia de confiança, recebeu não só o diploma da formação, bem como o do Ensino Recorrente. Já tinha concluído o Ensino Básico. Valeu mesmo a pena investir nas pessoas, conceder-lhes novas oportunidades, criando-lhes um projeto de vida que lhes permitisse dotá-las de conhecimentos, de competências e mecanismos que lhes consentissem enfrentar o futuro. O retorno é enorme e bem gratificante!

    O Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, celebrado no dia 1 de Janeiro deste ano com o lema: “A não-violência: estilo de uma política para a paz”, sublinhou que a paz é a única e verdadeira linha do progresso humano. Teceu ainda algumas considerações citando S. João XXIII que exaltavam: “o sentido e o amor da paz, baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor”. Relativamente à não-violência comentou: “A partir da família a alegria do amor propaga-se”. Enfrentemos, pois, as situações existentes de forma construtiva, não violenta, colocando “água na fervura” de modo a que se venha a alcançar a unidade. Todos almejamos a paz procurando construi-la todos os dias, mesmo envolvendo alguns sacrifícios e sofrimento, em prol do bem-estar da sociedade.

    Na mensagem do Secretário-geral da ONU para o Dia Internacional da Paz, dia 21 de Setembro de 2017, António Guterres deu ênfase ao facto de as Nações Unidas, terem nascido após uma terrível guerra mundial, sendo a sua missão trabalhar pela paz todos os dias e em todas as partes. A paz é um direito e o desejo de todos os povos. Constitui a fundamento para o progresso e o bem-estar – crianças felizes, comunidades vibrantes e os países pacíficos e prósperos.

    Termino este artigo solicitando a Santa Maria, Rainha da Paz, que interceda pela paz no mundo. Quase a concluírem-se as comemorações do Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima (13 de Outubro 2017), resta-me recordar que o terço é uma arma poderosa, que existe um défice de oração, que o material leva ao espiritual, apelando a que sejamos semeadores de paz e de alegria, procurando sempre harmonizar ou seja colocar “Água na Fervura”.

    Maria Helena Paes

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