O seu ofício é roer

13 Jun 2018 / 02:00 H.

    Quem conhece a realidade da política joga muito com a aparência das coisas, o ofício da política é o menos subtil de todos, nunca vi ninguém a seguir o aforismo de Sun Tzu: mostra-te fraco quando estás forte e forte quando estás fraco. Para não haver dúvidas, as gentes da política exibem sempre força, nós nunca sabemos as suas fraquezas a não ser que dediquemos algum tempo a prestar atenção ao que não é dito. A região perdeu trunfos, não está numa posição de força a negociar com a república, os deputados da região não trabalham em conjunto, tristemente, alguns deles nem sequer são deputados da autonomia, chegam a Lisboa e a única coisa que aspiram é ser romanos. É lá que se dão saltos de carreira, é lá que se chega à Europa, regressar à região nem sempre está nos planos dos “nossos” deputados. Ora, isto leva a situações caricatas, quando vemos um deputado da autonomia a dizer que a República não deve pagar o novo hospital e ninguém diz ao Sr. Deputado que ele deve-se demitir, algo anda muito mal com a nossa autonomia, pois é uma indicação que o horizonte aponta para uma nova liderança.

    E que nova liderança é esta? O dilema está aqui, que liderança queremos? Que tipo de autonomia desejamos? Estou absolutamente convicto que temos um problema de regime. A autonomia deve ter um presidente do governo e um presidente da autonomia, ambos eleitos, o segundo com poderes semelhantes ao presidente da república, ou seja, com poder de veto e de dissolução da Assembleia Legislativa da Madeira. Para além disto, deve ainda ter poderes de auditoria e fiscalização, em tudo o que tenha dinheiros públicos. O tema do presidente da autonomia merece uma crónica só para si.

    Regressemos à questão da liderança, estou absolutamente convicto que há matérias que devemos por em cima da mesa nas próximas legislativas regionais, e a principal, a mais relevante, é saber como o próximo presidente do governo regional irá lidar com a república. Que tipo de exigências terá e que tipo de relação de forças pretende estabelecer. Vejam o que aconteceu em Espanha, o líder do PSOE chegou ao governo através de uma moção e os votos dos deputados bascos. Será que teremos a audácia de usar o mesmo trunfo para defender os nossos interesses? Será que estamos genuinamente empenhados com a nossa região? Creio que isso não é suficientemente claro neste momento. E convém que essa clareza apareça. O governo regional tem um ofício, se esse não for executado para roer bloqueios, nada nos valerá.

    José Dias