Mais verde na cidade - entre a serra e o mar

17 Set 2017 / 02:00 H.

    Foi uma palestra proferida, há dias, pelo geólogo João Baptista que citou uma frase a reter: “Deus perdoa sempre, o Homem às vezes e a Natureza nunca” e que me fez refletir sobre o papel da natureza/ambiente na qualidade de vida nas cidades. Que a nossa ilha e a cidade do Funchal já foram várias vezes assoladas por catástrofes naturais, já toda a gente sabe; que a nossa cidade se encontra em atual desleixo, quer em termos de reabilitação urbana quer a nível de espaços verdes, também não é novidade nenhuma. Mas o que talvez possa ser uma novidade para alguns, como também o foi para mim, é o paralelismo que se pode estabelecer entre os nossos poios e as atuais hortas urbanas. Os poios servem, entre outras coisas, para promover a agregação dos solos e os seus muros de pedra permitem a escorrência do excesso de água, que assim não se vai acumulando até transbordar. Podemos até dizer que os nossos antepassados foram visionários e os verdadeiros precursores das atuais hortas urbanas. A agricultura urbana, para além da produção de alimentos para consumo próprio é um poderoso instrumento de adaptação e mitigação às alterações climáticas através do aumento das áreas vegetais que vai promover a redução de gases com efeito de estufa, que vai criar um efeito tampão, que vai absorver e reduzir o impacto dos eventos climáticos extremos; que vai aumentar as áreas de infiltração diminuindo os efeitos de cheias ou secas, que vai possibilitar a redução do desperdício alimentar e dos resíduos orgânicos que podem ser transformados em composto, potencializando assim o uso e a eficiência dos recursos urbanos, e que vai também, ao aumentar e diversificar o suporte vegetal, potenciar a biodiversidade e permitir o reequilíbrio do ecossistema. Assim, seria de todo o interesse mapear o solo urbano e periurbano, que não está a ser intervencionado, criando uma bolsa de terrenos, de utilização temporária, estipulando prazos de ocupação a curto e médio prazo com vantagens ambientais, como já se viu, com vantagens económicas através da geração de emprego e redução dos custos de manutenção da estrutura verde, e com vantagens sociais, através da promoção de um maior sentimento de pertença, da redução do isolamento social e com as respetivas consequências positivas na autoestima das pessoas. Esta é apenas uma sugestão, entre tantas outras possíveis. A cidade é de todos e o que todos precisamos é de dirigentes capazes, interessados, preocupados, não com o seu ego, mas com o bem-estar daqueles que representam. A natureza não vota mas, quando bem cuidada, é fértil nas suas dádivas. Nós que vivemos entre o azul do mar e o verde das montanhas somos beneficiários, mas também responsáveis pelo nosso ambiente, e temos a obrigação de ser sujeitos ativos na construção do nosso presente e na projeção do nosso futuro, fomentando a interação e a partilha de ideias na certeza de que no respeito pela (bio)diversidade seremos mais fortes naquilo que nos torna únicos.

    Natacha Silva

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