Madrasta é aquilo que a gente nunca planeou ser

12 Fev 2018 / 02:00 H.

    Planeamos, quando criança, sermos sereias, sermos bailarinas, sermos mães, sermos jogadoras de futebol, sermos tias (e calma aí mana que não o planeio para breve ok?!), ser presidente da República ou astronauta. Mas madrasta não. Madrasta nunca esteve nos meus planos. Mas a vida é assim mesmo, cheia de curvas que nos levam a lugares inesperados. Lugares lindos, mas ainda assim desconhecidos e cheios de sombras, cavernas e dúvidas. E o posto de madrasta é um dos lugares desconhecidos mais incertos no qual nós já estivemos. Ser madrasta é contar com presunção inicial desfavorável. A mãe, o pai, os avós, os tios, todos são presumidos como bons, como fonte de amor e de sorte. Só se pensará o contrário se eles fizerem algo de errado. Já a madrasta faz o caminho oposto. Somos presumidas como ameaça, como fonte de insegurança, poço de dúvidas. E terão que remar contra a corrente para provar que são bons e que merecem alguma credibilidade. Porque se o aceitamos ser, acreditem é porque e também amamos. E tu, que sempre tiveste a certeza de ser a pessoa mais porreira possível, vês-te nesta estranha posição de haver dúvidas a teu respeito, para as quais tu nunca contribuíste. De repente já não és vistas como aquilo que sempre tiveste certeza de ser. De repente amas incondicionalmente algo que na realidade não é teu por natureza. E chamam-te madrasta, mas sentes-te mãe, amas como mãe. Porque ser madrasta é dar banho. É tirar aquelas coisas que eles não gostam do prato e comer sem ter vontade disso. É ter pacotes das bolacha preferidas deles aberto na bolsa. É ser acordada às 5 da manhã num sábado com alguém que teve pesadelos e quer dormir contigo, mesmo com os pés gelados . É ter que ouvir e não contar nada. É ir buscar á escola naquele dia que ate tinhas planos mas nada é mais importante que ate “meio tostão de gente”. É deixar a saída dos dia de são Valentim pelo caminho porque ele chegou ate ti doente e precisa que cuides dele, mesmo quando tinhas aquele jantar maravilhoso, aquela lingerie sexy para estrear, já nada disso importa. É ajudar a estudar quando já nem te lembras das coisas, mas vais pesquisar na net para poderes ajudar na mesma. É aquecer o leite antes de o meteres na cama, e pensares bem que alimentos lhe são mais fáceis comer (mesmo que odeies o que vais cozinhar). É segurar ao colo mesmo quando já é pesadinho e precisa de mimos. É fazer praticamente tudo (ou tudo) o que os pais fazem, com a consciência de que tu nunca vais usufruir da incondicionalidade da qual eles usufruem. É seres mãe, e amares como mãe sabendo que por muito que eles saibam , alguém vai sempre lhe dizer “ela não é tua mãe!” Algumas de nós já contam com certas regalias. Ser convidada para as festas da escola. Receber um abraço no dia da mãe. Aparecer nos desenhos da família que eles fazem na escola. Outros não. Outras fazem tudo o que as mães fazem, mas seguem numa posição um pouco marginal, como se fossem bons o bastante para algumas coisas, mas não para outras. Definitivamente não é fácil. definitivamente é uma merda, não por eles, porque eles sabem que fazes o melhor... Ser madrasta é apaixonar-se e entregar-se para uma pessoinha que talvez nunca seja nossa. É ter que ser chata como as mães e nunca poder ter a leveza de uma tia, nem de uma avó ou ate mesmo de uma madrinha. É ter que medir as palavras para dar uma bronca que as mães podem dar sem pensar duas vezes. É ter um certo medo do futuro, de não saber se nosso amor seguirá sendo correspondido. E mesmo assim seguir amando. Na verdade isso nunca esteve nos planos de ninguém. Nem da mãe, nem do pai, nem da criança, nem da madrasta.. Ninguém contava com isso no início. Mas esses rumos estranhos da vida nos colocaram aqui por alguma razão. E todos temos que aprender a lidar com isso, especialmente pelo bem das crianças. É preciso ter força, ter maturidade e , frequentemente, colocar nos ossos interesses em segundo lugar. Mães e madrastas não podem ser concorrentes, não podem ser inimigas. Somos adultas demais para isso. Todos temos as nossas inseguranças, mas elas não podem ser maiores que o nosso interesse de dar uma vida feliz e equilibrada aos pequenos (às vezes já não tão pequenos). Ser madrasta é ser muito. É tentar ser o melhor possível. Tentar não invadir o espaço alheio e ao mesmo tempo tentar demarcar o nosso. É cuidar com algum medo, caminhar com algumas dúvidas. É brigar diariamente com os estereótipos, é sofrer com os modelos Disney de madrastas. É uma corda bamba muitas vezes ingrata. Ser madrasta nunca esteve nos planos, mas o inesperado por vezes traz grandes presentes. E não há presente maior do que olhar para eles e perceber que, entre trancos e barrancos, nos construímos uma relação de amor.

    Andreia Freitas Silvério