Há um ano

13 Ago 2017 / 02:00 H.

    Foi um dia que tudo mudou, o sentido de segurança, as certezas de uma família e o olhar dos meus pais que, durante 40 anos construíram mais que uma simples casa, um lar seguro. A parte principal da casa foi salva por heróicos vizinhos que, mesmo arriscando a sua própria vida, não desistiram da luta contra tão dantesco monstro. Dois dias depois era o momento de arregaçar as mangas e encarar a realidade. Os animais que não resistiram relembravam-nos a violência daquele dia. Já sem lágrimas nos olhos, recomeçámos. As telhas partidas, as portas despedaçadas, os vidros estilhaçados e o preto das paredes parecia demasiado difícil de recuperar. E sem apoios financeiros era impossível não desanimar. Mas a família e os amigos apareceram, connosco ajudaram a recomeçar, e o nosso sentido de gratidão é eterno. Os fins-de-semana transformaram-se na luta contra o negro das paredes e as cinzas das madeiras ardidas. O branco das tintas não era suficiente para esconder a cor preta de fumo nas paredes e por mais que cortássemos as plantas secas e moribundas, parecia haver sempre vestígios de tão difícil dia. Há muito pior que nós, diziam. Bem o sabíamos, conhecemos muitos e na entreajuda, ajudámos também com tudo o que pudemos. O que poucos percebiam é que, para nós, era uma luta contra as feridas visíveis que teimavam em não cicatrizar, cada parte ardida e despedaçada da casa da nossa infância, era a memória viva do fatídico dia. E todos os dias era um reviver do calor abrasador, do estalar dos castanheiros, do vento implacável, do cheiro a queimado e dos gritos de angústia dos vizinhos. Os meus pais não desistiram. E todos juntos transformámos cada parte afetada, aos poucos, num novo lar, pronto para receber de portas abertas a família.A recuperação do lagar ganhou um tronco de uma árvore de cicatrizes escuras e profundas. É lá que será feito o vinho deste ano. Porque a parreira, tal como o meu pai, teimou heroicamente em vencer esse dia. E olhando para trás, sinto-me grata por estar com a minha família neste verão, unidos com queridos familiares que chegaram de tão longe. Emociono-me ao relembrar um dia tão marcante que certamente não esquecerei. Um dia não assim tão distante. Um dia há um ano.

    Maria Freitas