O sorriso da democracia

12 Set 2017 / 18:36 H.

    Desculpem,

    Em 2013 uma equipa de independentes, apoiada por diferentes partidos, permitiu ao

    Funchal ver a luz da alternância politica, ao fim de quase quatro décadas da mesma

    governação. Foi uma mudança norteada pela competência, pelo respeito, por valores e

    pessoas sérias, de diversos quadrantes políticos e sociais, focada num novo modo de

    fazer em prol das pessoas e da cidade. O sentido de participação cívica fez-me abraçar e

    acreditar numa transformação genuína: trabalhar em equipa, organizar a assembleia

    municipal, participar nas decisões e melhorar o Município nas suas vertentes turística, habitacional, administrativa, urbanística, financeira e social. A esperança para o Funchal era muito forte!

    Decorridos escassos meses, os factos falam por si e o sorriso fácil revela-se apenas isso.

    A vaidade impõe-se e as prioridades alteram-se. Fazer notícia é o importante e apenas

    uma opinião e um protagonismo interessam. Desfaz-se a coesão da equipa, sem líder que a segure. Com algumas honrosas excepções, há que dizê-lo, a competência dá lugar

    à subserviência. O reconhecimento do mérito não tem espaço na nossa sociedade.

    Lamento. Aos meus olhos, a assembleia municipal não passa de um campo de protagonismo oco onde o que importa é aparecer e “destruir” o outro; um palco onde o melhor actor é

    quem “ganha” e onde o respeito democrático escasseia (um deputado colocar dois

    votos na urna para a mesma votação chega a parecer normal...)

    A esperança na diferença, no respeito e na transparência, enfim, na mudança, desvanece-se. À entrega genuína, independente e gratuita à causa pública sobrepõem-se os meandros do poder e do aparecer. Felizmente é, de novo, tempo de escolha, de reflexão, de exercer o inestimável direito de voto, de sentirmos que temos uma palavra a dizer, de termos consciência que viver

    em democracia é um privilégio.

    Temos obrigação de nos manter informados de saber o que pretendemos e quem queremos para a cidade. Eleitores e eleitos devem ater-se aos valores fundamentais de um Estado de Direito Democrático, sem medos!

    Nos tempos que correm e no mundo globalizado, assistimos com alguma impotência à

    proliferação de dirigentes, que, ultrapassando qualquer lógica partidária ou sociológica,

    alcançam o poder em resultado de bem sucedidas campanhas de marketing que difundem ideias, imagens e sorrisos vazios de substância.

    “A democracia precisa da virtude, se não quiser ir contra tudo o que pretende defender e estimular”, afirmou o Papa João Paulo II.

    Enquanto cidadã, sinto a necessidade de (re)afirmar o quanto acredito nos valores da

    democracia, o quanto estimo o meu país e a minha terra, o quanto prezo a informação

    séria e verdadeira; por isso, preciso também publicamente e com humildade deixar um

    sincero pedido de desculpa a todos quantos acreditaram e confiaram no papel que há

    quatro anos, como independente, assumi desempenhar. Desculpem se vos desiludi tal como me desiludi. A democracia não é feita apenas de sorrisos, faz-se com mais e mais cidadania, ainda

    que essa participação passe por um singelo pedido de desculpas como o que aqui quero aqui deixar. Viver em democracia é fruto de lutas e conquistas de muitos homens e mulheres, é um

    privilégio de algumas épocas e lugares onde a liberdade de expressão e de escolha

    convivem no pressuposto do respeito e da igualdade de oportunidades. Valorizemos,

    pois, a nossa época e o nosso lugar!

    Maria Luísa Clode Figueira da Silva Araújo

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