O buraco do Banif

28 Dez 2015 / 03:00 H.

    Conceição Pereira

    Em vésperas de Natal, e para que o Ano de 2015 nos deixasse este sabor amargo das contas a mais que que ainda nos falta pagar, lá vem o desfecho do “desequilíbrio” do Banif. Desequilibrou-se, abanou, desenraizou e desabou sobre as nossas cabeças.

    Nós, contribuintes, fomos acusados de fazer dívidas que não podíamos pagar e que andámos a viver acima das nossas possibilidades, temos de pagar as dívidas dos bancos e afins. Os senhores e senhoras do anterior governo central sacodem a água do capote: não sabiam, não sabem, não estavam lá... Tal e qual como disse o Ricardo Salgado sobre o mau desfecho do caso BES.

    Na Madeira, cujo governo regional se empenhou até às orelhas na criação do Banif, também ninguém assume responsabilidades. Apenas o actual Secretário da Economia se descarta, dizendo que estas perdas já tinham sido assumidas nas contas anuais da empresa, suponho que se refere à Empresa de Electricidade da Madeira. E fica por isto mesmo. O que importa, diz, “é a continuidade da actividade do banco.”

    Segundo o DN de 25/12, Dia de Natal, a região perde 8 milhões em acções do Banif. Ainda na edição do mesmo dia do DN ficámos a saber os nomes de algumas das empresas envolvidas em créditos mal parados do

    Banif: Construtora Tâmega, Colombo’s Resort, Aprígio Santos, Grupo Sá, Movifor, Castanheira & Soares.

    Acima de tudo, arrelia-me bastante que a Empresa de Electricidade tenha metido milhões no Banif. Aliás, esta história está um pouco mal contada, uma vez que, segundo o DN, “a participação pública regional era através da Empresa de Electricidade”. De toda a maneira, ou fosse com dinheiro da Empresa de Electricidade ou do Governo Regional eu

    pergunto: Quem deu autorização aos senhores que gerem a EEM ou aos governantes da região para comprarem acções nos bancos?

    O Governo de António Costa recebeu esta herança do Governo Passos/Portas e teve de resolver o assunto, porque o sistema português e europeu já tinham esperado o tempo suficiente para “safar” o anterior governo e agora teve de ser feito tudo de afogadilho. O Bloco de Esquerda, que há algum tempo vinha a preocupar-se com o mau comportamento de alguns bancos: BES, BPN. BPP, decidiu que só aceitaria votar a favor do Orçamento Rectificativo que permite a venda do Banif ao Santander com 2 condições: Integrar o Novo Banco na CGD e aprovar legislação que garantisse ao governo poderes na resolução de problemas financeiros com os bancos. Ou seja, aprovar legislação para que os contribuintes não sejam novamente obrigados a pagar outras dívidas de bancos privados. Mas o Governo de A. Costa não aceitou as propostas e o BE votou contra o orçamento rectificativo. E foi o PSD, com a sua abstenção, quem viabilizou o dito Orçamento Rectificativo.

    Por mais que o PS se diga de esquerda, resvala rapidamente para a direita, para o lado do capitalismo. Isto faz-me lembrar um episódio que aconteceu há anos. Um homem e uma mulher, que não eram casados, passeavam de braço dado. Entretanto, ela diz para ele: “Manulinho, chegue a mão mais para baixo.” E ele: “Mas a mão escorrega para cima.”

    O PS também é assim: escorrega para a direita.

    E quando alguns de nós pensávamos que talvez 2016 nos aliviasse um pouco da carga que carregamos desde há alguns anos, pumba, levámos com o Banif na cabeça. Como escreveu o senhor Villalobos no Público “O buraco tem sempre cobertura quando é o Estado a pagar a factura.”