128 anos, a ESFF?

12 Out 2017 / 02:00 H.

    A Escola Secundária Francisco Franco, com discursos, homenagens e entrega de prémios aos melhores alunos, comemorou o “dia da escola”, assinalado a 9 de outubro por ser a data do nascimento do seu patrono: Francisco Franco, escultor modernista português. É isso que este dia representa.

    Primeiro, e no próprio dia, vi no telejornal da RTP – Madeira a reportagem do acontecimento apresentando, com destaque, os 128 anos da escola. Uau!!! Nada mais incompreensível. Onde a repórter de serviço teria colhido tal informação, depois repetida pelo pivot de telejornal? Hoje, dia 10, vejo que o mesmo foi repetido pelo DN, para onde estou a enviar este texto como Carta de Leitor. Certamente outros órgãos de comunicação social, que não vi, o fizeram também. Não era engano da repórter da RTP-Madeira, os jornalistas estavam a retransmitir o que lhes foi dito na escola. De qualquer forma, não fizeram o seu trabalho de correta informação. Teriam todos percebido mal o que foi dito?

    Vejamos alguns factos e aspetos cronológicos. A escola secundária Francisco Franco, aquela a cujo quadro pertenço, habita um edifício escolar construído nos anos 50 do século XX para a Escola Industrial e Comercial do Funchal. Isso não faz dela a continuidade da sua antecessora, quem estudou para ser professor sabe, ou tem obrigação de saber, destas quebras. A pedagogia e o desenvolvimento curricular ensinam-nos isso. Os cursos aí ministrados eram outros e faziam dela outra escola. Era uma escola técnica. Aquela mesma onde comecei a minha atividade docente, onde tive turmas de construção civil, de electricidade, de mecânica, de formação feminina, de comércio e administração... Pode, querendo-se, falar da escola que ali esteve no passado e que hoje sabemos teria sido bom que tivesse continuado, limadas as arestas da diferenciação... (Mas isso é uma outra questão.)

    Sou professora de História, pelo que as questões de cronologia, mal resolvidas, me afligem. A Escola Secundária que veio a ser nomeada Francisco Franco, foi criada, como muitas outras por esse país fora, num tempo de grandes (para não dizer, enormes, e nem todas boas) mudanças no ensino português e alargamento da escolaridade. Uma delas foi a unificação dos dois tipos de ensino que até aí existiram, lecionados em escolas diferentes: as do ensino liceal e as do ensino técnico. O ensino técnico, tecnicamente, desaparecia (...passe o aparente pleonasmo). Os currículos foram reformulados em 1976. Assim, como “escola secundária”, a escola de que estou a falar, tem 41 anos.

    A sua nomeação passou, ainda, por um processo de escolha que, na Região, foi desencadeado pela Secretaria Regional de Educação, decorrendo na comunidade escolar entre 1976 e 1979 sendo atribuído neste último ano, à escola secundária já criada no lugar daquela onde funcionara o ensino técnico, o nome do escultor Francisco Franco. A antiga Industrial e Comercial transformou-se, então, na Escola Secundária Francisco Franco e usa este nome há, precisamente, 38 anos.

    De onde surgem, então, os 128 anos apontados na reportagem da RTP-Madeira e, hoje, profusamente referidos na do DN?

    O ensino técnico foi criado, nesta cidade, com a Escola de Desenho Industrial do Funchal a 10 de janeiro de 1889. O seu objetivo era o de promover competências nas indústrias então existentes na Madeira: bordado, vime, marcenaria. Em 1925, acompanhando a evolução económica, alargou a sua oferta integrando o ensino comercial. Tornou-se a Escola Industrial e Comercial António Augusto de Aguiar, nome que já usava desde 1891 e perdurou cerca de 79 anos. Foi este, um ministro, precursor do ensino industrial e responsável por uma importante reforma do mesmo. Esta escola praticou o ensino técnico por 87 anos e passou por quatro moradias antes de lhe ser construída, de raiz, casa própria à rua de João de Deus, n.º 9, sua quinta e definitiva residência até deixar de existir em 1976, por se ter transformado noutra escola, de ensino secundário, o novo modelo de ensino, geral para todos. E, em 1979, foi esta nomeada: Francisco Franco, ficando na casa da outra. Isto será, certamente, a razão daquela tão frequente confusão, que parece, verdadeiramente, difícil desfazer.

    Na verdade, nem o dia 9 de outubro é o dia 10 de janeiro para se comemorarem os 128 anos da primitiva escola de ensino técnico público desta região, nem o edifício que a FF veio a habitar tem, sequer, todo esse tempo, pois, ele apenas começou a funcionar como escola, ainda no meio de obras, no ano letivo de 1957/58.

    Por uma correta, precisa e clara informação.

    Maria de Fátima Vieira de Abreu

    Docente de História da ESFF

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